Clímax #40: Conselho climático, carne no prato e mais arte

Olá,

Na newsletter de hoje eu finalmente começo a nossa coluna de conselhos climáticos, lembram dela? É um espaço aberto para vocês pedirem ajuda com suas dúvidas e dilemas sobre a crise climática. Se quiser participar pode mandar uma pergunta por aqui ou simplesmente responder algum email da Clímax.

No espírito da coletividade que comentei na edição passada, a resposta de hoje é colaborativa. E não é só aí que teremos convidados. Lá no fim do email você encontra a Renata Azevedo Moreira, Doutora em Comunicação com ênfase em Estudos Curatoriais pela Universidade de Montréal e curadora do L’art au rendez-vous, nos falando sobre o encontro da arte com o meio ambiente.

Completo com a minha própria curadoria (não artística) com links para algumas das leituras mais interessantes que fiz desde a última newsletter.

Antes de partirmos para a conversa, lembro vocês do curso Nós & o Clima que começa no final do mês. Já se inscreveu ou mandou para alguém que pode se interessar? Clica no banner para saber mais.

Conselhos Climáticos

“Por que crise climática, sustentabilidade, permacultura, bioconstrução ainda são temas em que se vê predominantemente pessoas brancas/escolarizadas/de grandes centros/ viajadas discutindo?” - Pat

Para estrear a nossa coluna de conselhos climáticos eu escolhi uma pergunta da leitora Pat, pois é uma questão que vejo com frequência. Achei que mais o que nunca fazia sentido trazer outras vozes para este debate e por isso chamei a galera do Brota no Clima para me ajudar.

O Brota no Clima é, em suas palavras, “um programa de educação climática e comunicação feito de cria pra cria das periferias e favelas do Rio de Janeiro. O projeto, promovido pelo Engajamundo e apoiado financeiramente pela Samambaia Filantropias, engajou 25 jovens e gerou o podcast PodPassaravisão, o perfil nas redes Marcha Periférica, o jornal Clima de Perifa e o curta O preço do seu luxo”.

A primeira coisa a se pensar sobre a questão da Pat é: será que que esse é mesmo o único perfil que quer falar no assunto ou será que damos destaque a um tipo de porta-voz e invisibilizamos os outros? A Vitória Rodrigues coloca isso muito bem:

É tudo uma questão de visibilidade. Quando tu liga a TV durante o horário nobre, você só assistirá o que querem que você veja. A mesma coisa acontece com o ativismo climático. Se são os pobres, mulheres e negras as pessoas que mais sofrem com a crise em que vivemos, por que nós não estamos com o holofote? A gente propõe um ativismo de questionamento, porque se questionar sobre isso é o primeiro passo para desconstruir esse meio elitizado do clima. (Vitória Rodrigues)

Se pensarmos na linha de frente da crise climática, encontramos um perfil bem diferente do descrito pela Pat, tanto na linha de frente dos desastres quanto da defesa do meio ambiente. Isso é ainda mais claro aqui no Brasil, afinal, quem está todos os dias tentando proteger nossas florestas — cujo desmatamento é fonte importante de emissões — são comunidades indígenas e ribeirinhas. Mas por vezes o vocabulário usado pelas pessoas que mais sentem os impactos da crise climática não é o mesmo dos cientistas ou políticos que guiam a discussão midiática.

A pauta da sustentabilidade sempre esteve presente na vida de pessoas periféricas, negras, indígenas, ribeirinhas porque esse é o modo de vida dessas pessoas. Mas a partir do momento que a branquitude começa a se apropriar desses conceitos, ela transforma esses modos de vida, criando um cenário em que para falar de clima seja necessário usar termos complexos, e como se só elas soubessem sobre esse assunto. Para mudar essa realidade, as pessoas precisam buscar as origens das coisas, e começar a valorizar esses saberes enquanto ancestrais e tradicionais. É entender que não foi criado de agora, mas sim um resgate de uma ancestralidade. E daí, respeitar. Respeitar muito. (Bruna Valença)

Sabemos que nosso país é muito desigual e racista, e isso se reflete no perfil de quem tem plataforma para falar e quem tem poder para ser ouvido. Apesar de um curto período de avanços, nossa política ainda é majoritalmente branca, nossa ciência e academia também, e na mídia a mesma coisa acontece.

E aí a gente pode pensar também em onde estamos buscando esses debates sobre o clima, em que plataformas, em que formatos. Se quisermos olhar além da mídia tradicional, para as redes sociais e formatos como o desta newsletter, precisamos lembrar que mesmo com a suposta democratização que essas mídias trazem, criar conteúdo demanda tempo e também dinheiro. Na nossa conversa, a Beatriz Carvalho do PodPassaravisão me contou da dificuldade que é produzir o podcast, de achar alguém com o equipamento certo, com uma conexão de internet boa para subir os episódios e até mesmo para encontrar um local silencioso para gravar.

No Brota de forma geral eu noto que começamos a nos engajar na pauta ambiental porque percebemos que não se pode falar dos problemas que a gente vive no dia a dia e ignorar como a natureza está conectada a isso, sabe? A gente é privado das áreas verdes, e não é à toa. A gente sente na pele essa e outras privações, que é um projeto, não por acaso. Se chover, tudo enche por aqui. Se faz calor, é calor mesmo, e a água é pouca, e agora, por aqui [no Rio] é contaminada. A falta de luz é um problema recorrente e, muitas vezes, perdemos muito do que compramos com dinheiro suado do trabalho. E se tem alguma mudança, é aquilo de sempre: nós por nós. (Nayara Almeida, uma das articuladoras do Brota no Clima)

Às vezes também caimos na falácia de que grupos minorizados não se importam com o meio ambiente ou com o clima, quando na verdade pesquisas mostram que eles são os mais preocupados. Só que a desigualdade e a discriminação por si só sugam tempo e energia que poderia ser usada para lutar por essas causas. Isso quando não estão sugando vidas inteiras, como as das pelo menos 24 pessoas assassinadas no Jacarezinho ontem.

Como disse Toni Morrison, citada por Dra. Ayana Elizabeth Johnson no ótimo I’m a black climate expert. Racism derails our efforts to save the planet: “A função mais séria do racismo… é a distração. Te impede de fazer o seu trabalho. Te deixa tendo que explicar vez após vez a razão da sua existência”.

Por tudo isso são importantes projetos como o Brota, que tentam nivelar um pouco esse terreno, criando espaço e dando acesso às ferramentas para essas vozes que já existem e querem fazer parte do debate. O que eles fazem pelas periferias do Rio de Janeiro também pode ser e é feito por tantos em outros contextos e regiões.

Fico pensando em como nossas histórias estão sempre interligadas com o lugar de onde partimos. Grande parte dos nossos referenciais provém das nossas lembranças, então essas relações de afeto com o território estão presentes até mesmo nas nossas subjetividades. Sempre me orgulhei por morar em Santa Cruz, mas depois que cresci, me distanciei do bairro. Parece que uma parte da minha própria história se perdeu nesse meio tempo. Hoje em dia eu vejo o quanto esse distanciamento foi forçado por diversas estruturas, sobre não ter essa pertença forte com o “meu lugar”. Ver como esse esquecimento se dá na microestrutura de uma pessoa, me faz pensar em como isso também se dá em inúmeros setores. Temos no bairro um Distrito Industrial onde poucos que são daqui trabalham, mas sofremos com os danos ambientais causados por ele — principalmente quando pensamos nas ações da maior siderúrgica da América Latina, que foi negada em outros países na Europa. Acho que, durante a construção do Clima de Perifa, a gente pensou bastante em como a gente poderia criar um meio de acesso à informação para pessoas que vivem num cenário de desastres e esquecimentos socioambientais. (Ana Cruz do Clima de Perifa)

As favelas e periferias são espaços que mais sofrem o impacto das ausências de políticas públicas relacionadas ao meio ambiente. Os moradores sempre são prejudicados com o descaso e projeto político da poluição, altas temperaturas, chuvas extremas, e por consequência, com a face cruel do racismo ambiental. É importante haver espaços de formação sobre as pautas climáticas, de ação e de representatividades políticas feitas por pessoas que habitam e pensam nestes lugares. A solução precisa ser empática e eficiente, e sempre deve envolver a gente e nossas vivências e  realidades  e envolver o poder público - que precisa estar presente! (Ana Beatriz Ramona, Gabriele Vitoria, Rafael Moreira e Rudson Amorim do PodPassaravisão)

Está sentido falta de diversidade nas suas fontes de informação sobre o clima? Comece seguindo essa galera.

Não toque no meu prato

  • Mas aí um restaurante chiquérrimo de Nova York, o Eleven Madison Park, com estrelas Michelin e menu desgustação de mais de 300 dólares, anunciou que seu novo cardápio não usará carnes ou frutos do mar, e o site de receitas Epicurius disse que já faz um ano que vem apagando algumas de suas receitas com carne bovina e que parou de incluir novas no seu repertório. Você pode se perguntar, será que essas medidas fazem alguma diferença se pouquíssimas pessoas tem dinheiro para frequentar esse restaurante, e qualquer um pode procurar receitas em outros sites? Um ponto que eu acho interessante é o do simbolismo da carne. Ainda que você não goste de espumante, é inegável que associamos a comemoração de conquistas ou momentos especiais a um brinde com a bebida. E se tiver comida também? Você consegue pensar em algum prato “especial” que seja vegetariano? Ainda associamos pratos sem carne com comida do dia-a-dia, e, salvo raras excessões, toda vez que alguém nos fala que um prato é especial, seja por vir de um chef famoso ou um restaurante caro, por estar em uma série documental sobre gastronomia ou em um reality show de competição na cozinha, ou apenas ter sido ensinado pela Ana Maria Braga, o prato contém algum bicho morto. Talvez saber que existe um menu de 300 dólares só com vegetais, mesmo que você nunca possa pagar, pode trazer esse caráter aspiracional aos pratos vegetarianos. É claro que não podemos esquecer que o que comemos todos os dias é muito mais importante do que o que comemos em momentos especiais, e mais do que isso, que poder escolher o que vai no seu prato é um privilégio de poucos. Mas ao mesmo tempo, são esses mesmos poucos os que mais emitem e consomem no geral. Será então que essas mudanças são um passo importante? O que você acha?

  • A carne no prato é um signo identitário forte, principalmente nos Estados Unidos, aqui no Brasil e para alguns de nossos hermanos. A possibilidade da imposição da restrição do seu consumo se torna, então, a arma perfeita para quem quer atrasar a ação climática pois a transforma em ofensa pessoal. Um aspecto importante dessa identidade carnívora é a sua relação com a masculinidade, e o episódio Faça amor, não faça carne do podcast do O Joio e o Trigo explica muito bem essa treta.

  • Por falar em hermanos, o Ministério do Meio Ambiente da Argentina lançou uma campanha para diminuir o consumo de carne na segunda-feira, o famoso segundas sem carne ou Lunes Verdes, mas agora com apoio do governo. Ainda não foi divulgado como e o quanto a campanha será divulgada para a população que parece ainda não saber da sua existência. Mas a Associação Rural Argentina já reclamou dizendo que a carne é um “atestado da identidade nacional e o produto que mais representa o país internacionalmente”. Mesmo antes da campanha o consumo carnívoro no país já havia caído para menos de 50kg per capita anual pela primeira vez em 20 anos por questões econômicas.

  • E já que falamos em queda no consumo de carne, os jovens estão contribuindo para isso pelo mundo, né? Hm… não é bem assim. Me surpreendeu também, mas apesar de os jovens se interessarem mais pela crise climática e representarem a maior parte dos vegetarianos e veganos, uma pesquisa do World Resources Institute nos EUA e na Grã Bretanha, identificou que quem come menos carne mesmo são as pessoas com idade acima de 65 anos. E em alguns supermercados os jovens são de longe quem mais compra carne.

Famílias do antropoceno

+ MAIS +

O que a arte faz pelo meio ambiente

Por Renata Azevedo Moreira 

Definir o que é arte é tarefa árdua, para não dizer impossível. Isso porque novas práticas e tecnologias questionam incessantemente a fronteira entre arte e não-arte, uma separação que antes se baseava em critérios estéticos como habilidade técnica do artista e maestria dos seus meios de trabalho. A partir da emergência dos ready-made no início do século 20, uma série de transformações se seguiu em diversas modalidades da arte contemporânea, tornando esses limites ainda mais confusos. Exemplos são a promoção das redes sociais como um meio artístico tão legítimo quanto qualquer outro, os cruzamentos entre arte, ciência e matéria orgânica (bioarte), partículas microscópicas (nanoarte) ou tecnologia automatizada (arte robótica). 

No encontro entre arte, conscientização e preservação do meio ambiente surgem práticas artivistas em forma de instalações, workshops e vários outros tipos de eventos que reclamam sua natureza artística sem desdenhar o importante papel educativo que sustentam. Sem querer me prender a termos como ecoarte, que pode designar obras produzidas exclusivamente com materiais sustentáveis, ou mesmo arte e meio ambiente, que pode fazer referência ao movimento land art, eu apresento a seguir quatro projetos que nos convidam a uma reflexão sobre o Antropoceno. Ou seja: obras que nos incitam a pensar sobre a era geológica atual, em que a atuação do ser humano no meio ambiente gera impactos definitivos e não-negligenciáveis. 

  1. Free Range Grain, Critical Art Ensemble, Beatriz da Costa e Shyh-Shiun Shyu (2003-2004) 

Nesta instalação, realizada na galeria Schirn Kunsthalle, em Frankfurt, os artistas produzem um laboratório portátil de teste de alimentos transgênicos. O público é então convidado a levar alimentos considerados suspeitos, por qualquer razão, e os artistas testam sua composição genética e procedência, se voluntariando também para ingerir a comida considerada “contaminada”. Com o projeto, o coletivo tenta elucidar mitos e fantasias a respeito da engenharia genética de alimentos, uma estratégia de produção altamente demonizada pelo senso comum, mas ao mesmo tempo ubíqua na vida de todos. Questionando concepções binárias sobre bom e ruim, natural e artificial, o projeto mostra que o medo dos transgênicos vem da falta de conhecimento, e que facilitar o acesso do público à informação é também uma das funções da arte. Mais informações aqui.  

  1. Pimp My Carroça, Mundano (2012 - )

O projeto do artista de rua brasileiro Mundano começou em 2012 e se transformou em ONG. Seu objetivo é dar visibilidade ao trabalho dos catadores de lixo reciclável da cidade de São Paulo. A ideia de Mundano é evidenciar o quanto a profissão é invisibilizada e desvalorizada. Como começar a transformar esta realidade? Ora – ele pensou – transformando as próprias carroças em obras de arte móveis. Assim, Mundano começou a grafitar os próprios veículos, além de escrever neles frases que são mensagens dos próprios catadores de lixo, como “Não buzine” ou “Meu trabalho é honesto”. Hoje, a ONG conta com mais de 2.500 voluntários, 1.240 artistas e 2.022 catadores participantes em projetos que incluem tanto serviços sociais prestados aos próprios catadores e suas famílias – por médicos, massagistas e músicos por exemplo – além de experiências imersivas (ser catador por um dia) e intervenções urbanas para propagar e multiplicar o nível de conscientização popular sobre este trabalho. Mais informações aqui

  1. Camel Gastrolith, Chris Jordan (2016) 

Muita gente certamente conhece o trabalho Midway – Message from the Gyre, que o artista americano Chris Jordan começou em 2009 e segue fazendo até hoje. Nas imagens deste projeto, ele fotografa as carcaças de aves albatrozes cujos estômagos estão repletos de lixo. Sua obra mais recente, Camel Gastrolith, parte de uma premissa parecida. Porém, em vez de pássaros, o vídeo mostra sucessivas imagens de diversas massas de lixo que foram engolidas por camelos do deserto arábico. É o que Jordan chama de “gastrolitos”, em alusão à forma de meteorito que o compacto de lixo assume. Este trabalho é interessante porque ultrapassa a popularidade da poluição marinha, que ficou ainda mais famosa em documentários recentes como Seaspiracy, para expor vítimas que nós nunca poderíamos imaginar serem contaminadas pelos amontoados de plástico – mais uma prova de que a platisfera está mesmo em todo canto do mundo. Mais informações aqui

  1. I Can Drink the Distance: Plantationocene in 2 Acts, Torkwase Dyson, 2019

A artista afro-americana Torkwase Dyson tem uma prática singular porque alia elementos como design e arquitetura ao artivismo racial e ambiental. Este projeto apresentado na Pace Gallery, em Nova York, engloba a construção de uma plataforma física, uma mídia conhecida como instalação escultural, com o objetivo de dar espaço à apresentação de outros artistas engajados no mesmo tema.  Dyson trabalha com um conceito que ela criou chamado black compositional thought – ou pensamento composicional negro – que utiliza a conexão entre formas geométricas abstratas para explorar a ligação estrutural existente entre questões de raça, mobilidade geográfica e ocupação do espaço público, tudo isso sob o ângulo das mudanças climáticas. Nesta obra específica, a artista explora as conexões entre a supremacia branca e o processo de industrialização, representados pelo termo “plantationocene”. Mais informações aqui

Até a próxima!