Clímax #38: Além da ecoansiedade: clima e saúde mental

Será que já viramos a sociedade do trauma?

Olá,

Esta é mais uma edição da Clímax, uma newsletter sobre a crise climática escrita na primeira pessoa. Por vezes uma curadoria de notícias, por vezes reflexões e discussões, sempre com um toque pessoal e uma pitada de ecoansiedade.

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Recebi um retorno muito bacana da última edição e queria agradecer todo mundo que tirou um tempinho para me mandar um email e me enviar sugestões de livros(e às vezes até o arquivo!! Vocês são incríveis!). Quero também ressaltar que adoro conversar com vocês e que para falar comigo é só responder diretamente os emails da Clímax ou clicar no balão de conversa que tem logo abaixo do meu nome ali junto do título 👆.

Como vocês estão vivendo essa nova fase de recordes da pandemia?

Eu não gosto muito de filmes de terror, mas eu tenho uma obsessão meio esquisita com trailers e críticas de filmes, então esses dias li uma sobre um filme que usa o velho clichê do dia que se repete — tipo o Feitiço do Tempo ou, mais recentemente, Palms Springs — para o terror, com uma moça que todas as noites tem sua casa invadida por um homem que mata ela e seu marido. Todo mundo que ela conhece parece saber que isso acontece e aceita, dizendo que não há nada que possa ser feito e então ninguém faz nada. O filme (Lucky) é uma alegoria sobre como nossa sociedade responde a abusos cometidos contra mulheres, mas eu fiquei é pensando no quanto ele fala do que todos nós estamos vivendo agora. Toda vez que eu durmo eu acordo no pico da pandemia com as pessoas fingindo que ela não existe, mas eu me recuso a acreditar que isso seja o futuro do dia de ontem. Não é possível que o tempo esteja mesmo passando e nós sigamos cometendo os mesmos erros. A única explicação é que estamos repetindo o mesmo dia, dia após dia, e as coisas vão parecendo ainda piores porque a cada nova repetição observamos o caos com mais clareza.

Talvez isso não tenha soado coerente ou são, mas algum de vocês se sente em plena forma no momento? 

Esse ano de pandemia tirou muito de nós e ainda não sabemos quando teremos a chance de nos recuperarmos. Eu não quero piorar o desespero mas se já está difícil agora, como vai ser quando os impactos da crise climática se exacerbarem?

Vambora então refletir sobre os diferentes impactos que o clima pode ter na nossa saúde mental e o que podemos fazer para tentar amenizar traumas, ansiedades e dificuldades futuras e presentes.

Sociedade do trauma

Eu me lembro perfeitamente do momento em que me dei conta do privilégio que é ainda gostar de chuva. Deve fazer uns dois ou três anos, e talvez eu devesse me envergonhar de ter demorado tanto tempo. 

Foi uma dessas chuvas fortes e inesperadas que me pegou desprevenida em um evento ao ar livre. Rapidamente eu estava encharcada. Talvez seja confuso para quem não conhece Brasília, mas quando chove muito pode ficar impossível cruzar de carro de um lado do plano piloto para o outro pois é preciso que se faça por passagens que se situam abaixo do nível da rua. Ou seja, a água escorre rapidamente para essas passagens bloqueando o acesso. Era o caso nesse dia, fiquei ilhada do lado oposto da minha casa, aguardando que a chuva diminuísse para poder cruzar a pé. 

Sentei em um bar vazio e me lembro de passar o tempo todo pensando como seria bom chegar em casa, tomar um banho quente e depois um chá ouvindo o barulho da chuva e dos trovões. Em casa estaria segura. Me dei conta que em nenhum momento considerei a possibilidade de encontrar problemas quando chegasse lá, muito menos de não encontrar nada. Eu não corria risco de perder alguma coisa com essa chuva, talvez os meus sapatos, se quisesse forçar a barra, mas mesmo eles resistiram bem.

No entanto, a chuva não era só para mim. Naquele mesmo momento muitas pessoas perdiam algo que lhes era importante, e para algumas sequer era a primeira vez.

Mesmo tendo tido algumas experiências ruins, eu cresci associando chuva a coisas boas: banho de chuva no verão, bolinho de chuva, o cheiro de terra molhada, um cochilo ou um filme ouvindo a chuva cair. Mas para outras pessoas a chuva é um gatilho para crises de ansiedade. 

Uma pesquisa recente no Reino Unido constatou que vítimas de enchentes no país têm nove vezes mais chances de experimentar problemas psicológicos duradouros do que o resto da população, com o transtorno de estresse pós-traumático sendo o mais comum. Para quem sofre com isso, o simples barulho da chuva pode significar uma noite em claro ou crises de pânico, e a dependência de álcool ou antidepressivos não é incomum. 

Enchentes são apenas um tipo de desastre que causa traumas e cuja frequência e intensidade já está aumentando em razão do aquecimento do planeta. Temos ainda os efeitos secundários como deslocamentos forçados, conflitos sociais e fome, todos interligados, e potencialmente traumáticos. Mas as consequências da crise climática na nossa saúde mental vão além do trauma. 

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Solastalgia é um tipo de trauma climático também. O trauma de uma perda de identidade que se apresenta ao observarmos o nosso ambiente mudar, e sobre qual falei no Clímax #11. A perda de habitat também atinge humanos.

Os efeitos também podem ser fisiológicos. Tanto o calor extremo das ondas de calor, quanto a poluição do ar já foram vinculados a uma redução das capacidades cognitivas do ser humano. Uma pesquisa da Universidade de Harvard constatou que durante ondas de calor, estudantes que moravam em residências sem ar condicionado tiveram um desempenho pior em testes de foco e memorização em relação àqueles que viviam em dormitórios resfriados. O que também é mais um exemplo de como a crise multiplica desigualdades já existentes.

A Universidade de Stanford foi mais fundo e associou o aumento de temperatura a um aumento de suicídios, observando décadas de dados sobre temperatura e mortes nos Estados Unidos e no México. De acordo com seus cálculos, se continuarmos na mesma trajetória, o México verá um aumento de 2,3% de suicídios até 2050. Resultados semelhantes foram encontrados na Austrália, onde se observou que a diferença apenas de 1 grau Celsius na média mensal de temperatura aumentou o suícidio em 3% em Sydney e Brisbane.O excesso de calor também já foi ligado a um aumento da violência, do abuso de drogas e álcool, insônia e mudanças de humor.

Para quem faz uso de medicação para controlar distúrbios mentais as temperaturas mais altas trazem outros problemas. Antidepressivos que elevam os níveis de serotonina podem causar excesso de suor, o que por sua vez pode se transformar em desidratação em dias de calor extremo. Já o lítio usado em tratamentos psiquiátricos pode se tornar tóxico em pacientes desidratados por causa do calor. Alguns antipsicóticos podem ter o efeito oposto, prejudicando a capacidade do corpo de suar e, assim, de ajustar sua temperatura.

Há ainda a questão da alimentação. Uma maior concentração de CO2 na atmosfera tem sido atribuída a uma diminuição no conteúdo nutricional de vários alimentos, do arroz ao trigo. Os níveis mais baixos observados são de zinco, ferro, proteína e vitamina B. A deficiência de nutrientes também influencia a nossa saúde mental, e ainda falta muito para entendermos exatamente o efeito do CO2 em toda a nossa cadeia alimentar.

Mas não é preciso experimentar na pele as consequências da mudança do clima para sentir o seu impacto psicológico. Ecoansiedade é o que sentimos por antecipação ao observar o que já ocorre hoje e imaginar o quão pior pode ficar. É uma preocupação persistente sobre o futuro do planeta que pode se manifestar em medo, raiva. tristeza, culpa e até pânico.

O desespero não parte apenas da perspectiva de um clima mais hostil, mas principalmente da constatação de que a maioria das pessoas não parece se importar e não faz nada para impedir ou amenizar a situação. O sentimento de impotência e de solidão frente a essa dor exacerba o problema. 

Embora a ecoansiedade atinja a todos, ela tem tido mais impacto sobre os mais jovens. Um levantamento conduzido com psiquiatras que tratam crianças e adolescentes na Inglaterra constatou que mais de 57% deles haviam tratado pacientes perturbados por questões ambientais no último ano. As grandes greves de estudantes pelo clima são um reflexo disso. A própria Greta Thunberg diz que começou a se manifestar para sair de uma forte depressão causada pela sua preocupação com a crise climática.

LEIA TAMBÉM: A ansiedade é verde de Willian Vieira para Gama traz exemplos de como crianças brasileiras estão lidando com a ecoansiedade.

O que acontece quando juntamos ecoansiedade, traumas, respostas fisiológicas e todas as opressões e demandas modernas que já nos fazem mal? 

Se quisermos entender o que seria uma crise mental mundial, não precisamos olhar muito longe. Talvez a covid 19 já tenha nos transformado na sociedade do trauma.

Bebês completam um ano de idade sem terem conhecido seus avós. Crianças crescem sem conviver com outras crianças. Adolescentes e jovens isolados em casa ao invés de estarem na escola ou na universidade cometendo erros e se descobrindo. Adultos exaustos, perdendo a fé na capacidade dos governos de resolver grandes problemas enquanto tentam se conectar a mais uma reunião virtual. Mães devastadas, carregando nas costas os traumas de todos os outros. Perda, luto, insegurança, fome, solidão. Sem contar que a própria doença parece deixar sequelas neurológicas em muitos dos infectados e não temos nem ideia do que isso pode vir a significar. 

E se a destruição dos habitats nos trará mais zoonoses, talvez novas pandemias sejam também uma contribuição da crise climática à nossa crise psicológica. Parece que não tem como piorar, mas ao mesmo tempo, se tem uma coisa que a pandemia nos mostrou é que o fundo do poço é sempre mais embaixo do que a gente achava.

Mesmo antes do novo coronavírus já vivíamos uma crise de saúde mental, principalmente entre os jovens entre 15 e 29 anos para quem o suicídio é a segunda maior causa de morte de acordo com a OMS. Tragicamente, antes mesmo dos lockdowns e do isolamento social, muitos especialistas já relacionavam o aumento da infelicidade dos jovens ao uso de telas, com um salto em problemas psicológicos observado quando popularizou-se o uso de smartphones. Crianças e adolescentes já passavam menos tempo presencial e mais tempo virtual com seus amigos, e isso seria boa parte do problema. 

É claro que o culpado não é o objeto — celular, computador, televisão — mas o acesso ilimitado, indiscriminado e ininterrupto que ele representa. O mundo virtual amplifica os valores da nossa sociedade que já afetavam nossa saúde mental há muito tempo, mas em menor escala. São esses valores e as lógicas pelas quais vivemos que nos destroem psicologicamente, e são eles também que destroem o planeta. Não surpreende então que medidas que são boas para o clima sejam também boas para nossa saúde mental. Livrarmo-nos da nossa obsessão pela imagem, pela velocidade, pela competitividade e produtividade, pelo crescimento, seja ele econômico, intelectual ou espiritual e pelo consumismo é essencial para evitar o pior no clima e na nossa mente. A crise climática é também uma crise de desejos e a internet de hoje, principalmente as mídias sociais, é uma máquina de criação de desejos.

O mesmo vale para ações mais práticas. Deslocamentos de baixo carbono, como pedalar ou caminhar são bons para nossa mente. Adolescentes que vão para a escola de bicicleta, por exemplo, apresentam níveis mais baixos de stress e melhora na performance cognitiva e acadêmica. Vários estudos mostram que o uso de transporte público leva a um aumento na coesão comunitária e torna bairros mais caminháveis, além de aliviar o trânsito, outro causador de stress. O contato com a natureza por si só promove uma diminuição no stress, e indivíduos que se mudam para regiões com mais áreas verdes apresentam melhoria na saúde mental. 

Esforços de mitigação da crise climática acabam por mitigar também essa nossa crise psicológica, mas precisamos garantir que a preocupação com a saúde mental seja também incluída em nossos planos de adaptação, pois é preciso estarmos preparados para essa bomba que está chegando. O que podemos fazer para estarmos prontos para as demandas de uma sociedade do trauma?

Quando penso em tudo isso, eu fico com uma grande apreensão pelas próximas gerações. Não a geração Greta ou as crianças de agora, mas principalmente os que estão nascendo hoje e nos próximos anos. O impacto da internet, das redes sociais e smartphones parece ser maior naqueles que já nasceram ou cresceram desde muito pequenos em meio a essas tecnologias, aqueles que não conhecem um mundo sem elas. O que significará nascer em um mundo onde finalmente a crise climática é um tema comum, mas infelizmente suas consequências são mais visíveis? Ou em um mundo de pandemia ou de recuperação pós-pandemia? 

“A minha irmã de 6 anos não se lembra de muita coisa antes do covid, eu e minha irmã de 12 anos não nos lembramos de muita coisa antes do governo do Trump. Nós estamos crescendo em um mundo de negatividade visual e verbal constante. de caos constante, e nós vamos carregar essas marcas pelo futuro. Se preparem.”

Isso então me traz de volta para um questionamento que já paga aluguel para viver na minha cabeça: se é tão difícil implementarmos em nossas vidas as mudanças de perspectiva e de hábitos que  a crise climática nos exige por causa de valores enraizados, como vamos evitar que nossas crianças fiquem presas às mesmas amarras? 

Cabe aqui deixar claro que essa responsabilidade é de todos. Nossas crianças não são só aquelas que vivem conosco ou que apadrinhamos, também não é preciso ser familiar ou professor. Dizíamos que era preciso uma vila para cuidar de uma criança, mas destruímos as vilas e deixamos os pequenos como responsabilidade única de uma ou duas pessoas. Essa individualização da criação não é boa para ninguém e sequer funciona pois as influências externas são inevitáveis. Todo mundo que tem filhos ou acompanha de perto alguém que tenha, sabe que não importa que área da criação você queira controlar, seja o tipo de alimentação ou o uso de telas, por exemplo, sempre haverá momento em que a criança será exposta a essas coisas. Por isso, é nosso dever como não-pais de todas as crianças do mundo, pensar a que estamos expondo as crianças “dos outros”. 

Como sociedade nos prendemos a uma preocupação com o que as crianças precisam aprender, o que precisamos ensiná-las. Focamos em quais seriam as “competências do futuro”: resiliência, empatia, programação, mandarim. Mas precisamos também repensar o que não queremos que seja aprendido, para que não seja preciso desaprender mais tarde. Os vícios e mitos que nos fazem ver as mudanças de hábito necessárias para uma vida mais sustentável e de baixo carbono como um sacrifício.

Na última década, ouvimos muito a palavra desconstrução. Para que a sociedade seja mais justa, para que sejamos melhores uns com os outros, é necessário identificarmos e combatermos ideias enraizadas na nossa cultura e em nós mesmos que nos afastam desse ideal. Há um esforço coletivo — ainda que esteja longe de ser o suficiente — para se desconstruir o racismo e o machismo, por exemplo, mas ainda se pensa pouco sobre a desconstrução da nossa visão de relação com a natureza ou com o consumo.

Desconstrução não é um processo fácil. Então como seria se as próximas gerações não precisassem passar por isso? E se pudéssemos já evitar a construção, a internalização dessas ideias que já sabemos serem erradas?

São muitas as narrativas que nós ouvimos e reproduzimos sobre como viver, o que é ser adulto ou o que é ser bem sucedido, por exemplo, e elas nos seguem pela vida inteira. Ainda hoje se vende o velho roteiro fechado do que seria uma vida completa: ter um diploma, comprar uma casa, ter um carro, aumentar o seu padrão de vida, casar, ter filhos. O que nessa visão vai de encontro ao que precisamos e queremos para o futuro? O que nessa visão ainda será possível no futuro? Essa fórmula nunca funcionou para todos, e cada vez funciona para menos pessoas. O pior não são nem essas fórmulas macro, mas os detalhes que as compõem.

Também não adianta trocar gato por lebre, substituindo conceitos problemáticos por outros que também não se encaixam com o futuro. A quem serve subverter a ideia antiga de sucesso representado por um emprego estável de uma vida inteira na mesma empresa com a promoção de uma vida de freelancer ou “empreendedor” nômade digital que a cada mês troca de país, um estilo de vida incompatível com a crise climática?

Pausa aí e pensa comigo: neste momento de auge da pandemia, você diria para uma criança que aniversário de verdade é só aquele com festa grande, brigadeiro, parabéns e todos os amiguinhos reunidos, e que se não tiver isso nem dá pra dizer que a idade mudou, sabendo que o aniversário dela é no mês que vem?

Será que não estamos fazendo algo muito parecido?

Hoje já vemos adolescentes dizendo não querer fazer faculdade ou ter filhos pois não enxergam possibilidade de futuro. Não que eu ache que isso particularmente seja verdade, mas precisamos nos adaptar e deixar de vender para as novas gerações uma ideia de futuro que não existe para evitar frustrações e a busca por algo que já sabemos que não devemos buscar ou que jamais encontraremos. A ideia aqui não é criar heróis da sustentabilidade, não estou falando de responsabilidade individual, o que quero é proteger esses futuros cidadãos do próprio sistema ao mesmo tempo em que o mudamos. E com isso, quem sabe, mitigar a crise climática e a crise de saúde mental ao mesmo tempo. 

Que ideias e expectativas são essas que precisamos controlar e como isso funciona na prática é a pergunta mais difícil. Para tentar respondê-la tenho começado por mim, me perguntando quais são as desconstruções que eu estou tendo que fazer para me sentir mais responsável, mais ativa e menos culpada frente a crise climática.

Eu sei que muitas das minhas decisões ainda são tomadas com uma mente que na sua raiz continua acreditando na realidade que me foi apresentada quando eu era criança. Por mais que eu enxergue o presente e tenha uma perspectiva racional sobre o futuro, algo em mim ainda tenta se encaixar nas expectativas que o mundo me disse que tinha para mim.

Vejo como parte essencial da nossa tentativa de domar esta crise, o realinhamento das nossas expectativas não só para nós mesmos, mas também e principalmente, para as próximas gerações, libertando-as dos fardos que ainda carregamos e que dificultam uma verdadeira mudança. É preciso incluirmos nesse plano a reconstrução das nossas “vilas”, pois qualquer especialista pode te dizer que a resiliência psicológica depende de uma rede de apoio.

Imagina como seria se nossas crianças já nascessem nossas.

Pela internet

Até a próxima!