Clímax #37: Até que nem tanto esotérico assim

A revolução será espiritual?

Olá,

Hoje o texto vai longe. Pega um copo de água, uma frutinha, respira fundo e vem.

Desde a última newsletter oficial, em novembro, muita coisa aconteceu mas pouco parece ter mudado.

Como já era previsto, 2020 empatou com 2016 como os anos mais quentes já registrados, e um estudo diz que há pelo menos 12.000 anos o planeta não esteve tão quente. Isso diz respeito a temperatura atmosférica, mas os oceanos também estão mais quentes do que nunca. Ah é, sabe quem mais bateu recorde? O gelo que nunca derreteu tão rápido e já segue os piores cenários projetados pelo IPCC1.

Joe Biden assumiu a presidência dos Estados Unidos, colocou o país de volta no Acordo de Paris e assinou uma longa série de decretos pelo clima no que foi chamado de Dia do Clima. Os decretos mostram que os planos de retomada econômica do novo governo estarão intimamente ligados a ações climáticas. Mas falaremos melhor sobre isso em uma próxima newsletter. No geral, são boas notícias.

No Brasil as coisas continuam indo ladeira abaixo. O país apresentou uma “nova” NDC, basicamente igual a anterior. Alguns alegam que com novos cálculos na verdade significa uma meta ainda menor. Todo mundo reclamou e a Climate Action Network, composta por mais de 1300 ONGs ambientais pelo mundo, enviou uma carta a UNFCC2 pedindo que o Brasil seja repreendido. Aí o Arthur Lira foi eleito presidente da Câmara e o cenário pode piorar ainda mais para o meio-ambiente. Para completar, a gente perde mais de 50 mil pessoas por ano por causa da poluição do ar. Mas se você quer achar pontos positivos, uma pesquisa do IBOPE descobriu que 92% dos brasileiros entende que o planeta está aquecendo, e 77% acha que entre o meio ambiente e o desenvolvimento econômico a prioridade deve ser o meio ambiente. Quer mais? O Modefica te ajuda.

Os incêndios de 2021 já começaram na Austrália. Uma geleira no Himalaia se soltou destruindo uma barragem hidrelétrica e matando mais de cem pessoas na India, mesmo país onde os agricultores seguem há meses protestando novas leis agrícolas.

Também aconteceu o Fórum de Davos, agora virtual, e o mercado financeiro se disse cada vez mais investido (tumdum) na questão climática, com Larry Fink da Blackrock continuando como porta-voz da mudança no setor. Enquanto eles se mostravam preocupados, a Oxfam lançou um relatório sobre a desigualdade e mostrou que durante a pandemia a riqueza dos bilionários aumentou praticamente o mesmo que diminuiu a dos mais pobres. Só a graninha extra dos 10 bilionários mais ricos dava para evitar que toda a população mundial caisse na pobreza e ainda pagava a vacina para todos nós.

O PNUMA lançou um relatório sobre a lacuna de adaptação dizendo que ainda falta muito planejamento para estarmos preparados para os efeitos da crise climática, principalmente nos países em desenvolvimento que como consta no Acordo de Paris, devem receber fundos dos países mais ricos para implementar esses projetos, mas não estão recebendo o suficiente. Houve uma conferência mundial sobre adaptação climática. António Guterres, secretário geral da ONU, cobrou $$ das nações mais ricas. Patricia Espinosa da UNFCC fez a mesma coisa. A diretora-geral do FMI, Kristalina Georgieva, disse que ajudar os mais pobres a enfrentar os efeitos da crise climática pode impulsionar o crescimento econômico e deve ser prioridade dos governos. O dinheiro que é bom…

Mas o que deixou esta newsletter longa mesmo é o texto que você vai ler abaixo. Uma espécie de reflexão pessoal bem típica de final de ano. É basicamente uma conversa que tive dentro da minha cabeça nos últimos meses de 2020 sobre a minha, digamos, falta de espiritualidade e se isso seria um defeito ou se afeta a minha relação com a crise climática.

Share

“Eu tenho uma ideia. Eu acho que nós precisamos de uma nova religião.”

“Sério?”

“Bem, talvez não seja uma nova religião. Uma religião antiga. Talvez a mais antiga religião. Mas de volta entre nós. Porque eu acho que nós precisamos. As pessoas precisam de algo maior do que elas mesmas. Todos esses planos econômicos, sempre pensando em termos de dinheiro e interesse próprio - as pessoas não são assim. Elas estão sempre agindo por outras razões. Por outras pessoas. Por razões religiosas. Razões espirituais.”

“...”

“É uma grande parte do cérebro, sabia? O lóbulo temporal pulsa como uma luz estroboscópica quando você sente essas emoções. Uma sensação de deslumbramento - epilepsia - hipergrafia…”

(Conversa entre dois funcionários de uma organização internacional ficcional cujo objetivo é garantir os direitos das gerações futuras e cujas ações envolvem mudanças no sistema financeiro, reformulação da internet, e incentivo a novas tecnologias de mitigação e adaptação à mudança climática, discutindo uma outra medida possivelmente necessária para mudarmos o rumo do planeta em uma direção mais justa.)

The Ministry for the Future, Kim Stanley Robinson (em tradução livre)

A espiritualidade vai salvar o planeta?

Em momentos difíceis, alguns encontram conforto na ideia de propósito, destino ou de uma força maior. Eu sempre encontrei conforto no caos, no acaso, na certeza de que as coisas simplesmente acontecem e não há necessariamente um porquê.

Talvez por isso, nunca me interessei por religiões, espiritualidade, esoterismo. Para ser sincera, minha tendência sempre foi rejeitar esses assuntos e desconfiar deles apesar de admirar e respeitar de longe a fé dos outros. Mas talvez exatamente pelo mesmo motivo não tomo nada por verdade absoluta e sempre questiono minhas escolhas, inclusive essa.

Na última década vimos um retorno da popularização da busca pelo crescimento espiritual em boa parte criada pela mercantilização da espiritualidade que não só transforma essa busca em produto, mas também nos trata como produtos a serem otimizados através desse crescimento. Não faltam motivos para desconfiança. A ideia já é tão banal que esses dias comprei uma calcinha e ganhei um cristal de brinde. Até o Pinterest identificou que “o esoterismo moderno está no ar” nas previsões de tendências para o novo ano e deu dicas de como marcas podem usar isso a seu favor.

Por outro lado, reconheço que existem e sempre existiram buscas genuínas que vão além de modismos e mercados, pelas quais tenho muito respeito, mas com as quais sempre escolhi não me envolver.

No ambientalismo muitas pessoas e movimentos são intimamente ligados a uma noção de espiritualidade baseada na conexão com a natureza humana e não-humana. Aqui vai uma confissão: eu nunca me identifiquei com eles. Eu tenho até vergonha de dizer isso, porque a espiritualidade tem um ar de evolução, porque admiro isso nos outros, e porque tanta gente ao meu redor tem essa veia mais esotérica e não quero ofender ninguém. 

Não sou racional demais. Minha relação com a crise climática é, acima de tudo, emocional. Também não me sinto desconectada do resto da natureza, ainda que talvez pudesse me conectar um pouco melhor com outros humanos. Mas o que não consigo é me conectar com as práticas espirituais que vejo por aí.

Leia: Potions and protests: eco witches and how magik might save the planet, Dazed.

Porém, há algum tempo tenho me perguntado se há algo que eu estou deixando de ver. Estaria eu me privando de um conhecimento necessário para mudar e provocar mudanças?

Eu tenho muita dificuldade em pensar conceitos abstratos. Seria uma falta de visão? Um atraso cognitivo? Ou talvez seja recalque ou medo do que vou encontrar se me deixar acreditar. De repente é o meu pensamento colonizado que me limita. É preciso ir além?

É difícil definir essa tal espiritualidade da qual falo. É uma busca pelo oculto e por uma possível ampliação da consciência. Envolve, em parte, essa nova era da Nova Era. Me refiro ao movimento New Age lá dos anos 70 e seu esoterismo moderno que parece ter voltado capitaneado não mais somente por gurus, mas também por coaches. Essa abordagem muitas vezes também deturpa o conceito de decolonialidade e da busca pela ancestralidade, se apropriando do conhecimento tradicional sem de fato entendê-lo. Vendo-o apenas como um caminho para si próprio ou até mesmo para a diversão, sem se aproximar da origem desse conhecimento, como o temos visto com o uso de ayahuasca, peyote ou até mesmo palo santo e cristais.    

A questão aqui não é se os diferentes conhecimentos tradicionais são válidos, merecem reconhecimento e respeito — é claro que são — mas se abraçar o seu caráter esotérico, ou mesmo qualquer forma mais moderna de espiritualidade, é um passo necessário para uma mudança de visão de mundo que seja mais compatível com a vida no planeta a longo prazo. Ou seja, não estou querendo cancelar sua busca espiritual, nem as tradições ou crenças de ninguém, só quero saber se essa é uma jornada pela qual a humanidade inteira, e consequentemente eu mesma, precisa passar. Esta é, sobretudo, uma pergunta sobre mim mesma que trago aqui caso alguém mais passe por isso. 

As mudanças necessárias para controlarmos a crise climática de forma justa só serão possíveis com uma boa dose de espiritualidade? 

Será que só é possível mudar o mundo acreditando em algo maior do que nós?

Resolvi investigar, e de repente tudo o que eu lia ou assistia parecia querer me passar uma mensagem. 

Enxergando a poesia

O episódio especial Trouble don’t last always da série Euphoria se passa em um restaurante durante a véspera de natal onde a personagem principal, Rue, conversa com seu padrinho do programa narcóticos anônimos, Ali, sobre vício, dor e (sobre)viver. Em certo ponto da conversa, Ali fala que passamos por um momento de constantes revoluções que acabaram por perder o seu caráter radical. O que ele completa com o seguinte:

Uma revolução de verdade é espiritual. É a dizimação de prioridades, de crenças e estilos de vida. [...]

Você tem que criar um novo deus ou deuses.Você precisa acreditar em algo maior do que você. [...]

Você tem que acreditar na poesia.

É inegável que a crise climática nos demanda uma mudança de prioridades e de estilos de vida. Mudança essa que não parece estar chegando mesmo depois de décadas com a ciência do nosso lado e com os efeitos da crise cada vez mais visíveis. Parece que não importa o quanto a gente avança, nunca é o suficiente.

Nessas horas, não é estranho nos fazermos perguntas difíceis. Uma revolução é possível sem violência? A ação climática é possível em um sistema democrático? Encontrar um jeito de mudar nossas crenças parece, então, uma alternativa mais aceitável. Essa ideia de que com uma boa história poderíamos mudar o nosso caminho e causar uma espécie de tipping point do bem. Mas que história seria essa?

Sempre me incomodou a busca por algo maior que nós, não por eu achar que somos nós os maiores, mas justamente por não acreditar em hierarquias. Me parece que o segredo é enxergar o todo como um sistema amplo de partes de igual importância. Mas caso seja verdade que acreditar em algo maior do que nós é o que nos leva a novos modos de vida, que Deus é esse do qual precisamos agora? Que novo Deus poderia nos salvar?

No dia seguinte após assistir ao episódio de Euphoria, eu participei de uma reunião de um clube do livro do qual participo para discutir o livro The Overstory, que li em 2019 e sobre o qual falei por aqui em uma das primeiras newsletters. O livro conta a história da nossa relação com as árvores, passando pela relação delas entre si e com o resto do planeta, e em muitos momentos parece estar nos descrevendo pelo ponto de vista desses seres que estiveram por aqui há muito mais tempo do que nós.

Durante a discussão alguém falou que ler o livro foi como ler uma espécie de bíblia, pelo caráter mitológico da narrativa, e eu imediatamente lembrei da noite anterior assistindo Euphoria e me perguntei: seriam os deuses árvores?

Eu nunca li a bíblia ou qualquer outro livro sagrado, mas entendo que sua força não está no seu caráter dogmático ou mesmo de revelação divina, e sim na mitologia criada. O poder é narrativo, é imagético, criando um contexto para a nossa existência. Talvez seja disso que precisamos agora: uma espécie de guia.

Mesmo não conhecendo as histórias sagradas de perto, acho difícil que sejam mais bonitas e inspiradoras do que a história científica, natural, da formação do universo, do nosso planeta e de tudo nele, quando bem contada. Poeira de estrelas, choque de átomos, cooperação, evolução, o funcionamento dos nossos órgãos, a fotossíntese. As relações entre os elementos naturais do nosso planeta são mundanas, são palpáveis e são mágicas justamente na sua materialidade. Nosso guia está ao nosso redor. Para achar poesia não é preciso olhar para longe. 

Será que enxergar essa poesia é a minha espiritualidade e eu só não sei admitir?

Religiões modernas 

Cada vez mais pessoas têm se identificado como espiritualizadas mas não religiosas, e a espiritualidade que mais me incomoda é despida da estrutura religiosa. Mas se essa busca por “algo além” é um passo essencial para mudarmos o rumo do planeta, a religião também poderia ter um papel importante.

No documentário Minimalismo Já,  que trata dos benefícios de se ter menos e foi recém lançado na Netflix, uma entrevistada fala que um dos motivos para o consumismo ser tão popular é que esperamos que ele nos traga algumas necessidades humanas básicas cada vez mais difíceis de se satisfazer: a sensação de comunidade, propósito e identidade.

Por muito tempo a religião nos supriu essas três necessidades que se nutrem entre si, mas isso tem funcionado cada vez menos. O próprio minimalismo parece nesse filme querer se vender como uma espécie de religião sem usar essa palavra que pode causar aversão. Isso é feito através das falas de alguns de seus “convertidos” que dizem literalmente terem “encontrado o minimalismo” e deixado que ele mudasse a sua vida, como quem diz encontrar Jesus. 

O filme passa muito tempo no que seria o primeiro passo do minimalismo: se livrar do máximo de coisas possível. Essa ação é apresentada como um momento quase de catarse, o ponto de virada que abre as pessoas para um novo mundo e novas relações. É claro que se livrar de coisas em si não faz ninguém feliz, porém, dentro do contexto dos mitos e ritos apresentados pelo movimento, a ação vira um ritual e essa estrutura cria aqueles sentimentos mágicos de propósito, identidade e, principalmente, comunidade. Bingo! Substitui-se o consumismo por um novo ismo

Mitos e ritos são importantes e estão em falta atualmente. A escassez é tanta que buscamos rituais avulsos e  acabamos criando coisas esdrúxulas como os chás de revelação do sexo de bebês. 

No ano atribulado pelo qual acabamos de passar eu notei que muita gente que normalmente não liga para festas de fim de ano de repente se viu com vontade de reviver todas as tradições que conheciam, numa busca por um pouco de normalidade em um período tão atípico. Se não poderíamos sequer encontrar nossos familiares, faríamos de tudo para que o Natal ou o ano novo fosse perfeito em outros aspectos. Mas que aspectos são esses? 

Na falta de tradições com significado, o que sobrou foram imagens comerciais. O caráter sagrado do Natal já se perdeu para a maioria há muito tempo e, pelo menos no Brasil, está longe de ser uma tradição só de cristãos. Nos restou consumir o prato tal, a roupa certa, a decoração perfeita. Nossos rituais hoje são looks sem conteúdo, cenários para fotos. É a nossa ânsia por conexão se transformando em consumo mais uma vez, virando desculpa para não passarmos por certas transformações necessárias. Como vou parar de comer animais e não comer o peru de Natal? O que vai ser do réveillon sem fogos de artifício super poluentes? Sem isso, o que sobra?

É curioso pensarmos que antigamente os rituais eram conectados à natureza. Celebrávamos as trocas de estação, a chegada da hora certa para o plantio ou a colheita. Eram formas de dar importância a observação dos ciclos e das pequenas mudanças que acontecem no mundo natural. Algo ainda mais importante agora que esses processos estão se transformando com rapidez. Será que podemos voltar para essas práticas? 

Talvez pareça estranho para você vindo de alguém que diz não entender a espiritualidade, mas eu adoro um bom ritual. Eu estou sempre pensando em como criar esses rituais de observação da natureza na minha vida. Adoraria ter minhas tradições para comemorar o primeiro dia de chuva em Brasília, o primeiro ipê florido ou que for. Mas se esses rituais não forem compartilhados, não forem coletivos, eles cumprem seus papéis? Será que essa estrutura semelhante a religião é o que dá sentido a eles?

De consumismo a comunismo, tudo pode ser considerado um tipo de religião. 

Religião é qualquer coisa que confira legitimidade sobre-humana a estruturas sociais humanas. [...] A religião afirma que nós humanos somos sujeitos a um sistema de leis morais que não foi inventado por nós e que não podemos mudar.

Yuval Noah Harari no livro Homo Deus

Os inventores desse sistema de leis não humanas não são apenas Deus ou deuses. Muitas vezes essas leis são ditas naturais, como no caso do liberalismo ou do nazismo, por exemplo, que Harari também considera como religiões. 

Essas leis sem deuses são principalmente histórias ruins sobre nós mesmos. Nos fizeram acreditar que somos naturalmente egoístas, oportunistas, competitivos e exploradores. Fizemos nossas leis humanas e nossos sistemas econômicos baseados nisso. Mas é um ato de fé tanto quanto o é louvar a Deus. É acreditar em algo que não podemos ver e que não tem explicação. Se uma história como essa conseguiu se disseminar por quase todo o planeta, deveria ser possível alcançar esse feito novamente. 

Será que o que de fato precisamos são múltiplas religiões que substituam todos os ismos que nos colocaram onde estamos hoje? Será que o problema é que deuses nunca morrem, só são substituídos e precisamos, então, achar novos deuses que tomem o lugar dos atuais: dinheiro, mercado, poder, indivíduo, etc? 

Qual o limite entre acreditar que há mais no mundo do que o podemos ver e deixar de acreditar no que é visível? 

Se olharmos só para o conceito mais tradicional de religião, todas elas reverenciam a natureza, seja como criação divina, seja como a própria divindade. Porém, ainda que existam movimentos religiosos pró clima — inclusive movimentos inter-religiosos, como o Fé no Clima aqui no Brasil — eles partem de pequenas comunidades pertencentes a grandes organizações que há muito se distanciaram de tudo que não é humano ou sobre-humano e pouco fizeram para transformar nossos modos de ver o mundo. 

Extra:How a Young Activist Is Helping Pope Francis Battle Climate Change de David Owen para The New Yorker. Um fascinante perfil de Molly Burhans, uma cartógrafa ambientalista que está mapeando todas as propriedades da igreja católica — que incluem milhões de acres de terra e até mesmo florestas — para destiná-las a atividades benéficas ao clima, como conservação ou agricultura regenerativa, e já propôs ao Papa a criação de um instituto de cartografia dentro do Vaticano.

Além disso, a religião como instituição é mal vista como possível motor de mudança pelo seu histórico destrutivo, que inclui o papel dos missionários cristãos na interiorização do Brasil e na catequização e exploração de povos indígenas, desde a época colonial, até hoje. Mas será que a espiritualidade não religiosa está imune de causar estrago?

De protestos contra medidas de controle da pandemia (como lockdowns e uso obrigatório de máscaras), à invasão do Capitólio nos Estados Unidos, gurus e discípulos de conceitos de bem-estar da nova era têm se envolvido nos mais variados movimentos anti-estabelecimento, dentre os quais o neo-nazismo. Há até um termo para essa convergência cunhado no começo da década passada: conspiritualidade, uma junção das palavras conspiração e espiritualidade. 

Jake Angeli que se diz xamã, curandeiro energético e guerreiro metafísico. Se apropria de símbolso tradicionais, promove o uso de drogas alucinógenas para a saúde mental, acredita nas ideias do QANON e invadiu o congresso americano. Foto de SAUL LOEB / AFP.

Conspiração e esoterismo têm em comum a crença em algo maior que explica tudo mas que poucas pessoas conseguem ver. Não surpreende então que uma coisa possa levar a outra. Foi assim que adeptos de práticas de cura alternativa se juntaram com aqueles que acreditam em conspirações sobre controle da população por empresas farmacêuticas ou determinadas elites e popularizaram ainda mais os movimentos anti-vacina, por exemplo. A chegada da pandemia criou o palco perfeito para a expansão dessas conexões entre teoria da conspiração e o mundo holístico.

Esse é o outro lado da espiritualidade. Se ela pode nos abrir para novas formas de ver o mundo e o nosso papel nele, a crença na limitação da consciência humana e na ideia de que ela pode e deve ser expandida por vezes acaba em uma desconexão com a realidade. 

Outra face disso é a positividade tóxica que já se tornou um termo mais comum e trata do uso exagerado do pensamento positivo ou energia positiva, acabando por suprimir emoções negativas que são saudáveis e parte da vida. Ela parte do princípio que nós estamos no controle completo de nossas vidas e sucessos, e que é só mentalizarmos corretamente, usarmos os cristais e óleos essenciais certos, e participarmos daquela vivência holística X ou Y que alcançaremos todos os nossos objetivos. É como se não houvesse opressão que não fosse interna.

Os problemas não param por aí. A ideia de usar a espiritualidade para mudar o mundo já deu ruim muitas vezes. Acreditar que esse é o único caminho possível cria uma sensação de superioridade espiritual que pode levar alguns a querer forçar suas visões sobre os outros, ou simplesmente se aproveitar disso. Podemos observar a criação de cultos com preocupação ambiental como a comunidade Rajneeshpuram seguidora do Osho (assista Wild Wild Country), ou versões mais atuais como o NXIVM que dizia ensinar a expansão da consciência para criação uma sociedade mais ética (assista The Vow ou Seduced). Em ambos os casos, os membros acreditavam estar fazendo o mundo melhor, mas o resultado foi bem diferente. 

Você pode até dizer que essas pessoas não estão praticando uma espiritualidade de verdade. Mas colocar regras no que é ou não é certo no processo espiritual não vai justamente contra a ideia de espiritualidade? 

Entenda melhor:
Positividade tóxica: querer apenas boas energias pode ser "namastreta", Ecoa
O surpreendente efeito da positividade tóxica na saúde mental, BBC Brasil
New Agers and Wellness Influencers Are Falling for Far-Right COVID Conspiracies, Vice
Manifesting, for the rest of us, The New York Times
Inside Kelly Brogan’s Covid-Denying, Vax-Resistant Conspiracy Machine, GEN
Teorias conspiratórias do QAnon varrem o mundo e são mais perigosas do que parecem, El País

Até que nem tanto esotérico assim

Eu não acho que existe um jeito certo de ser ambientalista, ou de se importar com a questão climática. Também não há resposta pronta ou solução única para mudar nossa cultura e levar todos os humanos a mudarem seu estilo de vida. 

O que desperta a consciência de que estamos destruindo tudo ao nosso redor, o que nos inclui, e que mudanças radicais são necessárias, é diferente para cada um de nós. A comunhão com o resto da natureza pode vir da ciência ou da fé, pode vir de cálculos ou de transes. Talvez você precise chamar o planeta de Gaia ou de Pachamama para se importar com ele, talvez você prefira vê-lo como um conjunto de átomos, talvez os dois. 

Eu acredito que temos que prestar atenção naquelas três palavrinhas: propósito, identidade e comunidade. Esses conceitos precisam ser reencontrados e reinventados, e embora seja possível os encontrarmos na natureza, eles também podem vir dos lugares mais inesperados. 

Vai saber, de repente é o K-pop que vai salvar o mundo. De repente o K-pop já é uma espécie de religião. Afinal, no momento não parece haver movimento com maior capilaridade, habilidade de mobilização e disseminação de informação do que os fãs das bandas de pop coreano, como o ARMY do BTS, e seus próprios artistas. Eles, que defendem diversas causas importantes e que já tinham uma pegada ambiental plantando árvores pelo mundo, agora estão com os olhos voltados para a crise climática. Pode ser o tipping point do bem que nós esperávamos.

KPop? Fandom? Se você não sabe do que eu estou falando, eu também sabia muito pouco, mas isso é mais um sinal do quão extraordinário é o poder deles. Jogue ARMY ou BTS aí na internet agora mesmo, e se entender inglês escute a maravilhosa Camilla Costa (minha professora particular de ARMY) contar um pouco dessa história na rádio BBC.

No fundo, minha conclusão é que não tenho respostas e que não as tendo, entendo perfeitamente quem as busque onde quer que seja. Mas a espiritualidade não é um caminho único, ela pode nos levar a lugares muitos distintos, de utopias a distopias. Me parece claro que não podemos considerá-la um pré requisito para um mundo melhor. 

O planeta é um sistema amplo e diverso que precisa, sim, de um certo esoterismo, de pessoas que estão olhando além, que imaginem mais, mas precisa também de pessoas como eu. Até porque, o que é espiritualidade para mim provavelmente não é o mesmo que para você. Pode ser até mesmo que o ambientalismo em si já seja espiritual, ou mesmo uma espécie de religião. 

Por hora, mantenho os pés no chão.

Quer um outro ponto de vista? Enquanto eu terminava de escrever esse texto me deparei com uma opinião diferente, do monge budista Emersom Karma Kongchog no texto A urgência por mudanças internas e coletivas.

1

Painel Intergovernamental para a Mudança de Clima

2

Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima