Clímax #44: Plantio de árvores, ficção e Oceano

Olá,

Antes de mais nada, queria avisar que a Clímax vai sair de férias e volta só em novembro, mas eu estou deixando uma pilha de links de sugestões de leituras que vão durar um bocado. Me desejem um bom descanso 😎

Se você está recebendo a newsletter pela primeira vez ou acabou de chegar por aqui, a Clímax é uma curadoria de notícias e discussões sobre a crise climática escrita na primeira pessoa. Às vezes envio textos longos sobre um assunto só, às vezes uma coleção de links, às vezes – como no caso de hoje – trago também convidadas especiais. As edições anteriores estão sempre disponíveis no site. Não é assinante ainda?

Para quem dividiu o meu desconforto na última edição eu recomendo esta entrevista da Greta Thunberg (vcs sabiam que o segundo nome dela é Tintin?) para o The Guardian, provavelmente o melhor perfil dela que já li. Nele ela se diz feliz e fica ainda implícito que ela está mais feliz do que nunca, apesar de todo o caos. A razão não é o ativismo em si, mas as amizades que hoje ela tem em sua vida. Se Greta está conseguindo e se permitindo ser feliz acho que você também pode.

Do que falamos quando falamos em plantar árvores?

Plantar árvores é uma das soluções climáticas mais populares pois parece algo que qualquer um pode fazer, que não faz mal a ninguém e ainda promete se encarregar de boa parte das nossas emissões. Como uma capa da revista do The Guardian disse uma vez, as árvores são “máquinas de matar CO2”. Mas será que é mesmo tão simples?

O plantio em massa virou a promessa favorita de empresas, países e ativistas (Alô, Jane Goodall!). Desde o lançamento do Desafio de Bonn em 2011, que tem como objetivo a restauração de 350 milhões de hectares até 2030, muitos deles se comprometeram a recuperar grandes áreas degradadas. Porém, uma análise de 2019 apontou que quase metade desses compromissos pretendem alcançar suas metas através do plantio de árvores comerciais como acácia ou eucalipto. Outra pesquisa constatou que entre 2000 e 2012, cerca de dois terços da expansão de cobertura florestal constituiu-se de monoculturas como essas ao invés de regeneração de florestas naturais. Isso porque essas plantações trazem resultados mais rápidos, fáceis e mais rentáveis, principalmente a curto prazo.

Encher grandes áreas de monoculturas, às vezes sequer nativas, é mesmo bom para o meio ambiente ou para o clima?

Restauração deveria ser um processo de reparação de ecossistemas degradados, mas ecossistemas naturais dependem da diversidade que não é encontrada nessas plantações. Além disso, essas espécies armazenam muito menos carbono do que as florestas naturais e por pouco tempo, já que muitas das culturas são plantadas para serem cortadas pela madeira e celulose.

Uma matéria recente do Mongabay se debruça sobre esse assunto e apresenta uma possível conciliação. E se essas culturas pudessem ser cultivadas de forma menos intensiva e ajudassem a financiar a restauração? O professor Pedro Brancalion, da USP, aposta nessa ideia para a Mata Atlântica, com plantação intercalada de eucalipto e de árvores nativas. De acordo com seus experimentos na região, a renda da produção de madeira dos eucaliptos, que crescem super rápido, pode suprir de 44 a 75% dos custos da restauração da floresta natural, sem afetar seu crescimento nem antes nem depois do corte.

Mesmo os projetos de reflorestamento que não dependem da comercialização não são fáceis. Plantar milhares, ou até milhões, de sementes e mudas pode até ser feito em um único dia, mas manter as árvores de pé é outra história. Uma matéria da Vox traz diversos exemplos de como essas iniciativas podem dar errado, como com espécies erradas plantadas em solo errado ou em época errada, ou projetos que prejudicam o modo de vida tradicional dos locais ou até incentivam o desmatamento.

Além das florestas também precisamos arborizar cidades. Ondas de calor se tornarão cada vez mais fortes e frequentes pelo mundo, já estamos vendo isso acontecer, e seus impactos são maiores em áreas urbanas por conta da densidade, do excesso de asfalto e carros, da falta de vegetação. Árvores são uma das melhores estratégias para amenizar esses impactos, porém, assim como em áreas rurais, plantar é relativamente fácil, mantê-las para que cresçam e de fato comecem a ter efeito na temperatura local é bem mais complicado. Esta matéria do New York Times fala sobre a importância de projetos de arborização em grandes cidades e esta outra da Bloomberg foca nas falhas em projetos em Copenhagen e Los Angeles.

Deveríamos então desistir de plantar árvores? Claro que não! O que precisamos é de projetos bem estruturados, que entendam as dificuldades e os custos, com planos de monitoramento a longo prazo e que envolvam as comunidades locais. Projetos assim já existem. A reportagem da Vox cita o Pontal do Paranapanema aqui no Brasil como um projeto que funcionou, já o The Guardian conta de um projeto na Escócia que começou com um processo de mais de dois anos de conversas com os moradores locais para trazê-los para dentro, inclusive com a ajuda de um psicólogo.

  • Juventude ansiosa Setembro é mês de falar de saúde mental e também é mês de greve global pelo clima, uma coincidência que faz cada vez mais sentido. No Brasil, 86% dos jovens (16-25 anos) acredita que o futuro é assustador, de acordo com uma pesquisa com 10 mil jovens da faixa etária em 10 países, entre eles Austrália, Finlândia e Nigéria. A média mundial é 75%. Os brasileiros são ainda os jovens que mais se sentem hesitantes em ter filhos por causa da crise climática, com 48% concordando com essa resposta. Mais da metade dos entrevistados disse sentir-se com medo, triste, ansioso, com raiva, impotente, indefeso e/ou culpado e não é à toa. Outra publicação recente, da organização Save the Children em combinação com estudo na revista Science, comparou a exposição à eventos climáticos extremos de pessoas nascidas em 2020 e em 1960 caso sejam mantidas as metas atuais dos países signatários do Acordo de Paris. No que diz respeito a ondas de calor, o tipo de desastre que mais matou pessoas no ano passado, projeta-se que crianças nascendo agora devem vivenciar, em média, 6,8 vezes mais desses eventos durante sua vida do que quem veio ao mundo 60 anos antes. Ainda no assunto, o Portal Lunetas lançou o projeto Emergência climática e as múltiplas infâncias: por um futuro no presente e um site com bastante conteúdo sobre onde esses dois temas se encontram. Já o site Modefica produziu para o Setembro Amarelo a série de matérias "Crise Climática e Saúde Mental" com três matérias (I, II, III), a segunda delas escrita por mim. E aqui na Clímax eu falo bastante desse assunto, mas particularmente na edição #38, e a edição #12 tratou da questão da hesitação sobre ter ou não filhos.

  • A COP26 deveria ou não acontecer agora? A Conferência do Clima das Nações Unidas está marcada para as primeiras semanas de novembro em Glasgow, na Escócia, porém, as regras sanitárias do Reino Unido estipulam para viajantes são no mínimo inusitadas, dificultando a entrada de quem vem da América Latina, África e Ásia. Além disso, a desigualdade na distribuição de vacinas pelo mundo só aumenta a desvantagem de muitos dos países dessas regiões e, consequentemente, dificulta o envio de representantes para a conferência. No começo do mês a Climate Action Network, uma rede global de mais de 1,3 mil organizações não governamentais, fez um apelo formal pelo adiamento do evento. Logo em seguida um representante das Maldivas, parte dos países mais vulneráveis, disse que eles não foram consultados e que consideram que a COP tem sim que acontecer pois já estamos em estado de emergência, essas nações precisam de ações imediatas e já tivemos mais de um ano de adiamento por causa da pandemia. Alguns dias depois, a coalizão dos países menos desenvolvidos (LDC) manifestou sua preocupação e publicou um pedido para que o Reino Unido garanta que a conferência será inclusiva e justa. Há poucas semanas do início das reuniões, e com pouquíssimo tempo hábil para aqueles que precisam quarentenar por 14 dias em um terceiro país para ter sua entrada permitida, está nas mãos do governo britânico resolver a situação. Ficaremos de olho. Enquanto isso, podemos ajudar a delegação do Engajamundo a enfrentar todas essas barreiras para chegar à Glasgow contribuindo com a vaquinha deles e garantindo pelo menos um pouco de diversidade por lá.

  • Que tal um pouco de esperança? O Grist publicou as 12 histórias finalistas do concurso de ficção Imagine 2200: Climate Fiction for Future Ancestors (Ficção climática para nossos futuros ancestrais), apresentando ideias de futuro pelo menos um pouquinho mais otimistas do que de costume. Junto com as histórias saíram várias matérias sobre o poder da ficção, dicas de livros e uma entrevista bem bacana com a autora vencedora. Me lembrou uma frase da Dra. Ayana Elizabeth Johnson que eu li neste outro texto também bem interessante: “O clima precisa ser o contexto de todas as histórias que contamos”. E vale lembrar que lá no Instagram da Clímax eu volta e meia comento os livros de Cli-Fi (ficção climática) que eu leio, e temos um destaque com dicas. Eu ando particularmente interessada justamente em histórias que tem a crise climática como pano de fundo e não tema principal.

Miscelânea

  • Não é diretamente relacionado com o clima mas uma das minhas leituras recentes preferidas foi o texto By Design da Meg Conley sobre como o design de nossas cozinhas também é política. [inglês]

  • Este fio no Twitter no Dia Mundial sem Carro conta a história da nossa relação com automóveis, uma que já começou problemática:

Adriana Lippi é uma oceanógrafa que bandeou pro lado da comunicação. Como comunicadora ela não pára um segundo buscando tornar mais acessível o conteúdo científico, principalmente quando o assunto é o Oceano. Ela escreve no blog Espraiada, produz e apresenta o quadro Agente Natureza no Submerso Podcast, entrevista cientistas no youtube e ainda cria conteúdo bacana no insta @dri.lippi. A convite da Clímax a Dri escreveu o texto abaixo:

O Dia depois de Amanhã é Hoje

Não é só por causa do meu crush no Jake Gyllenhaal que gosto muito do filme “O Dia depois de Amanhã”(2004). Os primeiros 8 minutos do filme dão uma palhinha sobre o trabalho de paleoclimatologista e uma rápida explicação correta sobre a influência das correntes oceânicas na regulação climática. No filme as mudanças climáticas causam uma mudança brusca nas condições meteorológicas. Mas o que acontece no resto do filme é possível?

Vou aproveitar o convite da Bibiana para falar um pouco da relação Oceano e Clima, que nem sempre fica clara. Antes de retornar pro plot do filme, vamos relembrar umas coisas sobre nosso planeta.

Mais de 71% da superfície da Terra é coberta por água. A água tem uma grande capacidade de guardar calor: ela demora pra esquentar e, depois de aquecida, ela demora para esfriar também. O calor do Sol não chega igual em todo o globo, ele aquece mais a região da linha do Equador, logo as correntes marinhas da região também ficam mais quentes. Considerando as Leis da Física, um fluido vai tentar entrar em equilíbrio, tipo quando você joga um copo de água quente numa bacia de água fria, toda a água vai ficar com uma temperatura média, ao contrário da água quente ficar separada num canto da bacia. Logo as águas quentes tentarão levar seu calor para regiões mais frias. Quando a água do oceano congela na região polar e forma geleiras, o sal não congela junto, então a água ao redor fica mais salgada e mais densa. Essa água mais densa afunda e esse processo funciona como um dos principais motores da circulação global oceânica (Circulação Termohalina). Agora junta tudo isso com o fato do nosso planeta girar.

Ufa! Depois dessa mini revisão a jato a gente pode voltar pro filme. No filme o derretimento das geleiras pelo aquecimento global despeja muita água doce no oceano e leva à interrupção da corrente do Atlântico Norte (AMOC). Pois se a água polar não fica muito salgada ela não afunda na mesma velocidade e impede que as correntes quentes sigam do equador para o Norte. Com isso as temperaturas no hemisfério norte caem rapidamente

Isso que o filme apresenta faz muito sentido e está de acordo com as pesquisas científicas. 

O que meus professores sempre apontaram é que esse fenômeno pode levar séculos, então não deve acontecer de forma tão abrupta, em alguns dias, como no filme. A diminuição da força da AMOC já está acontecendo e ainda não temos certeza de como esse enfraquecimento pode impactar o planeta. São muitos mecanismos climáticos interrelacionados, cada acontecimento pode frear ou acelerar outros.

Há indícios apontando que a interrupção da AMOC levará o hemisfério norte a ter temperaturas muito mais baixas, pois as correntes não levarão mais calor do equador para lá, e no hemisfério sul teremos um aumento maior ainda de temperaturas, com isso mais ciclones e eventos extremos. Se quiser saber mais sobre a Circulação Termohalina, a M.Sc Fernanda Matos deu uma aula sobre o tema no meu canal e falou sobre a pesquisa dela que acompanha esse enfraquecimento da AMOC.

Até novembro!