Clímax #39: NFTs, impacto da arte e nós

Uma edição um pouquinho diferente...

  
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Olá,

Esta newsletter está diferente. Você notou?

Antes de você dar play (sim, é realmente um botão de play!), deixa eu te contar um pouquinho do que está acontecendo.

Vocês já estão cansados de me ver falar do quanto a pandemia tem afetado a produção da Clímax. Entre altos e baixos dessa fadiga pandêmica essas últimas semanas, cheias de notícias ruins e discussões se acumulando na espera do Dia da Terra e de Cúpula dos Líderes sobre o clima, me deixaram sem quase conseguir ler e tornaram escrever praticamente impossível. Troquei, então, o teclado pela voz e as notícias da desgraça brasileira por um assunto ainda climático mas com ar de escapismo. 

E se o enxame de notícias é ruim, o isolamento é ainda pior. Um dia desses eu me lembrei de um texto que havia lido, parte de uma série do The Guardian sobre os desafios de 2020 na Austrália — incêndios, enchentes, pandemia. Nele a escritora Jane Rawson falava sobre como quando enfrentamos a realidade da crise climática nos perguntamos para onde podemos fugir. Onde estaremos seguros? Como? Mas não há um onde que nos salve, não adianta nos mudarmos para um paraíso climático ou transformarmos nossas casas em fortes capazes de enfrentar qualquer catástrofe. A melhor forma de nos prepararmos não é através de muros e bunkers, mas sim, através das nossas relações com aqueles ao nosso redor. 

Tudo, tudo, tudo que nóis tem é nóis, já diria Emicida. Quanto maior e mais unido esse “nóis” for, melhor estaremos. Se a mitigação parece nos escapar por entre os dedos, a base da adaptação à crise climática é o fortalecimento das nossas comunidades, do coletivo. O que mais precisamos depois de desastres não é de tijolos mas de pessoas que se importem conosco.

Eu comecei esta newsletter porque eu precisava dividir, precisava do diálogo e companhia, mas tinha dificuldade, principalmente morando em uma nova cidade. Eu nem imaginava que uma pandemia estava prestes a surgir, tornando as trocas entre pessoas ainda mais difíceis. 

Tem sido ótimo ter vocês aí do outro lado, principalmente nesse último ano de tanto isolamento. Recebo mensagens, convites, conheci muita gente. Mas de alguma forma eu me mantive sozinha aqui nos emails e acho que é hora disso mudar um pouco. Daqui pra frente quero trazer mais gente pra dentro. 

Esse play aí em cima é parte dessa ideia e ao longo deste email e dos próximos que virão vocês notarão mais esforços nesse sentido.

Quer chamar mais gente também?

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E por falar em trabalho coletivo…

Eu me juntei com a Lua Couto do Futuro Possível e criamos com muito carinho este workshop para falar de crise climática e seus significados. É um curso para todo mundo, para quem já se interessa pelo assunto e para quem ainda não sabe por onde começar. Vocês estão convidados!

Clique aqui para mais informações e inscrição. Aproveitem e ajudem a divulgar por aí :)

O “podcast”

O áudio aí em cima é como uma versão falada de uma newsletter, mas não é o monólogo de costume, é um diálogo. Chamem de podcast, se quiserem, mas um podcast de um episódio só. 

Nele eu converso com a Caroline Barrueco sobre NFTs, a blockchain, o mercado da arte e a importância de discutirmos o impacto ambiental de novas tecnologias e ideias assim que elas aparecem. São pouco mais de 40 minutos de uma conversa que na verdade durou 4 semanas de trocas de mensagens, links e áudios de Whatsapp e que começou por conta da polêmica das emissões dos NFTs e aos poucos foi se expandindo. O mais interessante é que eu e Carol partimos de pontos bem diferentes, eu de olho na questão ambiental e ela como alguém que investe há anos em criptomoedas, que já cunhou seu próprio NFT mas que gosta de questionar as coisas. 

Eu confesso que mergulhei de cabeça no assunto, lendo, vendo vídeos e pedindo que a Carol me explicasse questões técnicas e burocráticas nos horários mais inconvenientes, porque para mim virou uma espécie de fuga da realidade. Os NFTs estavam tão distantes da minha vida que mais parecia ficção ou discussão hipotética, e talvez fosse isso que eu precisasse para conseguir voltar a me concentrar em falar de alguma coisa relacionada com o clima.

Se você chegou até aqui e ainda está se perguntando de que raios eu estou falando porque você nunca ouviu falar de NFTs, agora é a hora de apertar o play que a gente te explica direitinho. 

*Abrindo no celular você verá um link para adicionar este áudio ao seu aplicativo de podcasts favorito.
Se você quiser complementar a escuta, temos algumas sugestões de leitura com opiniões diversas:
Qual o dano ambiental das NFTs? e Do que falamos quando falamos sobre NFTs da Barbara Mastrobuono no SP Arte 
NFTs Weren’t Supposed to End Like This do Anil Dash no The Atlantic
HERE IS THE ARTICLE YOU CAN SEND TO PEOPLE WHEN THEY SAY “BUT THE ENVIRONMENTAL ISSUES WITH CRYPTOART WILL BE SOLVED SOON, RIGHT?” 
Could a ‘Crypto Climate Accord’ erase cryptocurrencies’ carbon footprint? de Justine Calma no The Verge
Money for nothing da Vicky Osterweil
Trust in the Blockchain Society, um documentário sobre a blockchain depois do hype. 
Blockchain, the amazing solution for almost nothing do Jesse Frederik para o The Correspondent

O impacto ambiental do cinema

O debate sobre as emissões dos NFTs trouxe à tona o problema mais amplo das emissões das artes, um assunto que costumamos evitar. Motivos existem aos montes. Arte é essencial, sempre terá algum impacto mas já sofre ameaças demais para adicionarmos mais um argumento que pode ser usado contra ela. Porém, há muito que a arte ainda pode fazer para ser mais sustentável sem perder sua essência, e isso só vai acontecer se falarmos a respeito.

Recentemente foram divulgados dados sobre uma das formas de arte que mais demanda recursos e produz emissões: o cinema.

A Netflix lançou um compromisso de corte de emissões e, com ele, um relatório de suas emissões em 2020 que totalizaram 1.100.000 toneladas métricas. Desse total, 50% são das produções dos filmes e séries, sejam eles feitos pela empresa, encomendados para outras produtoras ou de conteúdo licenciado. Ou seja, todos aqueles que têm o selinho da marca. 

Outros 45% de emissões são produzidos nos escritórios da empresa ou em coisas que eles compram, o que inclui o gasto com marketing, por exemplo. Você já viu influencer abrindo brinde especial de alguma série nova? Pois é.

Só os últimos 5% é que são para manter a tecnologia envolvida no streaming em si. Assim, uma hora assistindo seu conteúdo emite bem menos de 100g de CO2 equivalente. 

A Sustainable Production Alliance, composta por vários estúdios de Hollywood como a Sony e a Disney, também divulgou um relatório de emissões que inclui desde o consumo de combustíveis - geralmente usados em veículos e geradores, e responsáveis por de 48 a 58% das emissões de uma produção - até o consumo de eletricidade, vôos e acomodação da equipe. 

Eles calcularam que em média um pequeno filme tem uma pegada de carbono de 390 toneladas métricas, enquanto um desses filmes feitos para serem sucesso de bilheteria (como filmes de super heróis) emitem por volta de 3.370 toneladas métricas, ou 33 toneladas por dia de filmagem. Já as séries de TV têm pegadas de 13 a 77 toneladas métricas por episódio. 

A tal da Cúpula

Amanhã é o Dia da Terra e também o primeiro dia da Cúpula de Líderes sobre o clima, o evento convocado pelo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, que contará com 40 chefes de Estado discutindo ações climáticas e o papel de cada nação. Nas últimas semanas, as notícias ambientais brasileiras foram inundadas de matérias sobre as negociações entre o nosso governo e o dos EUA a respeito da preservação da Amazônia. Foi um vai e vem de conversas fechadas e abertas, cartas de todo mundo pró e contra, de famosos, de governadores, do próprio Bolsonaro e até campanhas internacionais pedindo que não se confie no nosso presidente. Mas no fim acabamos no mesmo lugar que estávamos antes de tudo isso. A não ser que o discurso de 3 minutos que Bolsonaro dará amanhã traga alguma novidade. Será que ele vai mudar de tom?

É claro que esses não foram os únicos acontecimentos e o governo continua se aproveitando (e criando) distrações para "passar a boiada" como, por exemplo, com a aprovação no Senado da PL 4348 de regularização fundiária, e com a publicação de uma Instrução Normativa que, de acordo com os funcionários do IBAMA compromete e paraliza "todo o processo de fiscalização e apuração de infrações ambientais".

Hoje, inclusive, rolou um twitaço #forasalles, bem explicadinho neste fio do Observatório do clima:

Para conseguir acompanhar a bagunça sem fim que são as medidas (não) ambientais do governo brasileiro eu sugiro ficar de olho no Sinal de Fumaça, um site que monitora e cria uma linha do tempo desses acontecimentos. Porque como bem disse Gregório Duvivier sobre o Bolsonaro em sua coluna na Folha de hoje: “Não falar dele é impossível, falar dele é insuportável”. O mesmo vale para a política ambiental do país e eu não dou conta, não.

Por outro lado, você viu que 6 jovens (entre eles o amigo da Clímax, Paulo Ricardo 💚) entraram com uma ação popular em São Paulo pedindo que o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, o ex-ministro Ernesto Araújo e a União sejam responsabilizados por uma “pedalada” climática na NDC brasileira e que a mesma seja anulada? Entenda:

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Dicas literárias com a Livraria Baleia

A Nanni Rios é uma livreira das boas, liderando a Livraria Baleia em Porto Alegre, um espaço dedicado à literatura de autoria feminista e antirracista e às temáticas de gênero, sexualidade e direitos humanos.

A Livraria Baleia está promovendo uma série de encontros chamada Big Bang! que se propõe a ensinar como a literatura pode nos ajudar a lidar com questões complexas do presente, como migrações, arranjos geopolíticos, artes, gênero e a crise climática.

É no encontro Gaia Arrasada que a crise climática será discutida, usando como base as obras de Ailton Krenak e Bruno Latour. Infelizmente ele acontece no dia 02 de junho, mesmo dia e horário da última aula do Nós & o clima, mas os encontros são gravados e podem ser assistidos depois. 

Foi por isso que eu a convidei para nos dar dicas de leitura que nos façam pensar no clima de forma mais poética, e espero tê-la de novo de tempos em tempos nos indicando novas visões.

As indicações de hoje:

Carta à Terra, de Geneviève Azam
Mesmo depois de muito estrago, uma conversa sincera pode ajudar a reparar as coisas. E se não dá para bater aquele papo reto olho-no-olho, quem sabe, então, escrever uma carta?
É isso que a ambientalista francesa Geneviève Azam faz neste livro. Ela conversa com a Terra, repassa o desenvolvimento da humanidade, fala das ilusões do capitalismo verde e convoca uma insurreição ética e política para defender o planeta e os diversos mundos que ele abriga. E não haveria nome melhor para escrever o prefácio desta edição brasileira: Ailton Krenak.

Mineração: genealogia do desastre, de Horacio Aráoz
Um ensaio histórico-sociológico sobre as veias abertas da mineração na América Latina. O autor argentino Horacio Aráoz identifica o espírito da mineração encravado na nossa concepção de mundo enquanto sociedade - um lugar onde a crueldade e a cobiça pautam a existência social. E finaliza com um epílogo cheio de aprendizados urgentes.

A Nanni ainda fez a gentileza de criar um cupom especial para os leitores da Clímax. Quem quiser comprar os livros indicados aqui e os outros livros que fazem parte da bibliografia do encontro Gaia Arrasada ganham 10% de desconto inserindo CLIMAX no campo "cupom de desconto" na hora de pagar. A Baleia envia para todo o Brasil. 

Fortaleça as livrarias independentes! #defendaolivro


Amanhã é Dia da Terra, mas não esqueçam de celebrar o planeta todos os dias.

Tchau!