Clímax #28: Futuro? Que futuro?

O que pudermos imaginar

Olá,

Veja só, hoje eu vim otimista :)

Vou falar de futuros e, como sempre, de uma forma bem pessoal. Como o texto é longo não vou me estender na introdução.

Provavelmente não teremos Clímax nas próximas duas semanas pois estarei envolvida no treinamento global do Climate Reality, onde serei mentora de um grupo de novos líderes brasileiros. Mas nunca estou muito longe.

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Primeiro foram os hábitos, e tudo começou pelas mãos. 

As lavávamos com mais frequência, evitávamos tocar os outros, as paredes, o corrimão, a maçaneta. 

Então nos trancamos em casa. 

Deixamos de sair, de encontrar os amigos e a familia, de ir ao escritório. Mudamos o jeito de trabalhar, cozinhamos muito mais, lavamos tudo que entra em casa.

Veio o reconhecimento dos nossos erros. 

Acompanhamos a formação da tríplice de crises: sanitária, econômica, política. Observamos também a exacerbação das crises que fingíamos não ver: desigualdade, machismo, violência, racismo e tantas outras, em tantos níveis.

Confirmamos o que já imaginávamos, que nossos sistemas não tem resiliência e, assim, não permitem que sejamos resilientes como indivíduos.

Foi aí que começamos a pensar mais no futuro. Será que poderia ser diferente? Será que poderá ser diferente se quisermos?

Por que é tão difícil vislumbrarmos outras opções? 

O futuro que almejávamos parou de fazer sentido, e então paramos também de sonhar. Deixamos de ansiar pelo que viria e chegamos até a nos voltar para trás. Essa busca pelo passado, como já sabemos, tem elegido líderes pelo mundo, pois para muitos parece valer mais a pena voltar para o que já conhecem do que seguir em direção ao precipício. Mas não acho que buscamos de fato o passado, ninguém quer voltar aos anos 50 ou 60 sem celular, netflix e tratamento para tantas doenças - embora alguns prefiram um mundo sem vacinas. O que buscamos é o futuro do passado.

Acredito que a nossa imagem de futuro parou no tempo. Há muito tempo. 

O futuro do passado é o futuro onde só o que evolui é a tecnologia. Um futuro criado em outro século, descrito por escritores de ficção cientifica de diferentes eras e no qual temos acreditado há gerações e gerações. É o futuro das máquinas e dos botões, da conquista do espaço e das modificações genéticas. Onde o homem se encaminha para alcançar o mesmo patamar que Deus, criando máquinas a sua semelhança, superando os limites do planeta e atingindo a vida eterna. 

Perdemos a habilidade de ver mudanças que não sejam tecnológicas. Acreditamos quando a última estrela do Vale do Silício nos diz que vai criar um carro voador que mudará o mundo, mas não confiamos em economistas quando nos sugerem novos modelos econômicos para os quais dedicaram anos de estudo.

Veja bem, o problema não é a tecnologia em si - sequer contesto que ela seja essencial - mas sim essa nossa insistência em vê-la como única ponte para o futuro e o desprezo pela nossa humanidade e nossa capacidade de mudar. É como se acreditássemos que paramos de evoluir como humanos e agora a evolução só virá a partir de máquinas. Esquecemos o quanto nos transformamos desde que nossa espécie surgiu no planeta e toda a diversidade de organização coletiva que já tivemos. Nunca fomos estáticos, sempre estivemos em constante adaptação, porque teríamos parado agora? 

Nos agarramos ao futuro que nos deram e deixamos de pensar no que queríamos ou no que poderíamos ser. Ao invés de regular a vela conforme o vento, nos deixamos levar pela maré.

Ficamos então obcecados pelo que chamamos de inovação, e consideramos inovadores aqueles que tornam realidade ideias antigas. Inteligência artificial, reconhecimento facial. Não surpreende que vivamos uma realidade distópica quando (re)produzimos tecnologias inventadas em ficções distópicas. Parece mais fácil aceitarmos que viveremos distopias do que sonharmos com utopias.

Vejo essa obsessão claramente refletida na ascensão dos hoverboards. O conceito de hoverboard veio da ficção, sendo popularizado nos filmes De volta para o futuro. É aquele skate voador que o personagem principal encontra quando viaja para 2015 e que logo vira o seu meio de transporte favorito. Desde que o filme foi lançado diversas empresas e inventores têm tentado tornar o produto real. Com o futuro de Marty McFly chegando (2015), o desejo pela materialização desse conceito só cresceu. Como ninguém havia descoberto como fazer o troço voar, foi preciso se conformar com uma nova versão, uma prancha com rodinhas que depende do seu equilíbrio (e de baterias) para se mover. O segway sem guidão.  

O hoverboard não faz absolutamente nada de novo. É um meio de transporte elétrico tal qual uma bicicleta ou um patinete podem ser, mas para o qual você precisa ainda mais equilíbrio. Nem criatividade, nem  utilidade. Rapidamente virou febre, é claro, capitaneado por celebridades postando vídeos nas redes sociais. Até hoje tenho um vizinho que utiliza um hoverboard para ir ao trabalho pelas calçadas esburacadas de Brasília. 

Quantas outras supostas inovações recentes você consegue pensar que seguem a mesma linha?

Será que inovação é só isso? Inovação trabalha sobre uma base já existente, às vezes tentando aprimorá-la, muitas vezes apenas a combinando com outras coisas também já existentes. A inovação não dá espaço para novas criações. Mas só trabalhar o que já existe ou já foi pensado não é o suficiente, precisamos ir além. É preciso criar novos sonhos e novas visões do zero. É preciso imaginar o que nunca foi imaginado. Só assim poderemos voltar a nos entusiasmar com o futuro. 

Não há nada de novo nessa ideia. Tem gente levantando essa bandeira há algum tempo. Dizem que vivemos uma crise da imaginação. Mas se olharmos com cuidado, em todos os cantos do mundo tem quem tente criar novas narrativas de futuro. 

No movimento climático a ideia vem crescendo. Sempre foi mais fácil encontrar descrições dos cenários mais aterrorizantes das mudanças do clima e costumamos vê-las em cada texto que lemos sobre o assunto. Podemos detalhar com o que o mundo se parecerá caso tudo dê errado, mas e se tudo der certo? Fingimos que estamos em uma batalha entre o que temos hoje e o horror do que pode ser, mas essa dicotomia é uma grande falácia. Ainda que valesse apenas mantermos o que temos hoje este nosso mundo já está perdido. O nosso presente não é viável como futuro. Tirando essa opção da mesa o que nos resta é apenas a versão ruim, não podemos continuar assim.

Quando a proposta do Green New Deal se formalizou nos Estados Unidos, a Naomi Klein se juntou a congressista Alexandria Ocasio-Cortez para imaginar um futuro no qual o projeto foi implementado com sucesso. Elas partiram da ideia de que as pessoas precisam optar por essas mudanças não por terem medo do que acontecerá se elas não o fizerem, mas por sonharem com as coisas boas que elas trarão. O resultado é o vídeo abaixo:

Há muito tempo que eu pensava na falta que faz termos boas imagens do futuro e me questionava por onde andavam as utopias. Me parecia que não importava para onde eu olhasse só via perspectivas ruins. Eu buscava uma cura para o meu pessimismo fora de mim e mesmo nas artes eu já não conseguia encontrá-la. O que eu esquecia era da minha parte nisso. Eu não assumia a minha responsabilidade.

Veio então a pandemia e paralisou o presente, abrindo os nossos olhos para a oportunidade de mudar o futuro. E não só isso, quando entendemos que o presente estava em pausa, que não poderíamos contar com a maioria das coisas que estávamos acostumados a contar para nos trazer algum tipo de prazer ou alívio, nos vimos com a necessidade de ansiar pelo futuro. 

Quando as incertezas cancelaram os nossos planos e não permitiram que criássemos novos no curto prazo olhamos para o longo prazo e o futuro distante voltou a fazer parte do nosso vocabulário.

De repente todo mundo falava de futuro. E eu, que há muito já havia desistido do futuro do passado, me vi presa no futuro do presente sem assumir minha responsabilidade em criar o Futuro, assim mesmo, com letra maiúscula.

Nas últimas semanas alguns eventos se encarregaram de juntar as peças na minha cabeça e me ensinar por onde começar. 

Primeiro eu li sobre o futuro que pode já estar em andamento no relatório Anticipating the post-covid-19 world: implications for sustainable lifestyles (Antecipando o pós-covid-19 no mundo: implicações para um estilo de vida sustentável) da Market Analysis. O estudo observou mudanças de comportamento provocadas pela pandemia e faz uma projeção dos seus impactos positivos e negativos nos estilos de vida de um futuro próximo. 

Eu ouvi de David Holyoake em um painel virtual esses dia que “mudanças de valores ocorrem muito mais lentamente do que mudanças de comportamento” e me pareceu pertinente aqui. Será que a mudança de comportamento pode levar à uma mudança de valores?

De acordo com o relatório, as evidências mostram que as pessoas não estão automaticamente reproduzindo velho hábitos e também não se jogaram em estilos de vida radicalmente diferentes, mas 26% dos brasileiros consultados imaginam uma vida diferente com nova rotina e novas atividades no pós-pandemia. 

Foram criados quatro perfis de estilo de vida que possivelmente serão adotados quando a crise da Covid-19 passar, e se analisa cada um deles à partir de diferentes aspectos, do consumo ao amor à segurança financeira. Os perfis são (em tradução livre): o “de volta ao normal”,  o “materialista virtual” - que adota um comportamento que eles chamam de vingança do consumo, o “socializador modesto” e o “rebelde digital”. É interessantíssimo observar a descrição de cada um deles, com seus defeitos e qualidades, tentar pensar se nos encaixaremos em algum. Fiquei pensando muito nos efeitos da adoção de cada um desses estilos de vida na nossa sociedade e no nosso futuro e me peguei querendo ajustá-los para obter um resultado melhor.

Enquanto eu digeria o relatório comecei a ter encontros (virtuais) semanais com uma amiga para conversar sobre a importância da criatividade e como havíamos nos afastado dela como sociedade. Então, na semana passada eu comecei a ler o livro The Future Earth: A Radical Vision for What’s Possible in the Age of Warming do Eric Holthaus, no qual ele se propõe a imaginar um futuro no qual nós unimos nossos esforços para conter as mudanças climáticas. E no domingo eu vi ser lançado o movimento Liberte o Futuro que convida todos a imaginar um futuro onde possamos e queremos viver. 

Eu me dei conta que para imaginar o futuro precisamos pensar não somente em como queremos que o mundo seja de forma ampla - igualitário, sem racismo, sem violência, sem pobreza - mas também em como isso se reflete no nosso dia-a-dia. 

Rob Hopkins, criador do movimento Transition Towns e autor do livro From What is to What If: Unleashing the Power of Imagination to Create the Future We Want - no qual ele discute o poder de se pensar “e se..” - costuma dizer que nós precisamos criar memórias do futuro

Eu entendo memória como mais do que apenas uma visão, mas algo que você sente com o corpo todo. Memória para mim tem cheiro, tem som, textura e até gosto. É uma ideia que te é íntima, que parece fazer parte de você e da qual você pode sentir falta e por ela ansiar. 

É assim que devemos nos sentir sobre o futuro. Por isso é essencial que a gente consiga se ver nesse tempo e espaço que ainda não existe.

Se eu quero um futuro sem racismo, por exemplo, quando eu fecho meus olhos e recupero a memória desse futuro eu preciso que negros sejam parte de todos cenários. Quando imagino como será o bairro em que eu moro, preciso enxergar vizinhos negros. Se penso em como será a educação dos meus filhos, preciso ver seus colegas negros. Assim como no meu trabalho, no lazer, nos tipos de organizações políticas. É preciso ver.

Na quinta-feira o The New York Times publicou um artigo chamado I’ve Seen a Future Without Cars, and It’s Amazing (Eu vi um futuro se carros e é incrível), no qual o autor Farhad Manjoo pinta o retrato de uma Nova Iorque voltada para as pessoas e não para as máquinas. É um ótimo exemplo de como imaginar outros cenários, com texto e também imagens de antes e depois que constroem um espaço de sonho no qual a gente pode entrar, sentir e quem sabe criar memórias.

Eu quis me propor a fazer algo parecido. O meu primeiro passo foi fazer um exercício que é muito usado por quem tenta pensar no que pode ser: criar um diário que narre um dia na minha vida nesse futuro que eu quero. Rob Hopkins faz isso no seu livro, artistas o fazem, o Market Analysis fez isso no relatório que mencionei. É um ótimo jeito de pensar o futuro.

Um diário me permite criar memórias, me permite narrar com os meus cinco sentidos. Eu penso em todos os aspectos da minha rotina do momento em que eu acordo ao momento em que vou dormir. O lugar onde eu acordo e como ele se parece, o que eu como, como eu escovo os dentes, com quem me relaciono, por onde passo, quais são meus compromissos, o que faço por prazer e o que faço por dever. Como eu quero que os meus dias sejam? Como as minhas ações diárias podem refletir os valores que eu gostaria de ver no futuro?

É um processo lento, e deve ser, mas tem sido também muito esclarecedor. Eu mal cheguei na hora do almoço e já sei que no meu futuro ninguém trabalha mais do que meio período, sei que eu vejo muito mais gente nas ruas, que eu possuo muito menos coisas e compartilho muito mais, que o bairro no qual eu moro tem uma horta urbana comunitária onde eu sou uma das responsáveis pelos morangos e onde eu colho alfaces para o almoço e levo meu lixo orgânico para a compostagem. Eu sei também que durante as horas que caminhei nesse futuro eu não vi nenhuma propaganda.

Neste momento não é preciso pensar em como chegaremos à esse futuro e ele não precisa parecer plausível ou sequer possível. O possível, afinal, está em constante construção. Os últimos três meses pareciam possíveis para você no ano passado?

Imaginar um futuro bom para todos agora é muito mais importante do que pensar em como chegar lá. Eu não estou falando em utopias, em mundo ideal. Esse futuro terá problemas também, e é preciso incluí-los nos nossos cenários. Mas precisamos ter algo que almejamos, decidir um destino para então descobrir como lá chegar, ainda que hajam desvios, ainda que tenhamos que parar um pouco antes, ainda que nunca cheguemos ao destino final. Se não pudermos sonhar, como poderemos lutar?

Muita gente quer fazer algo pela crise climática e não sabe por onde começar. Talvez a resposta já esteja em você, talvez você só precise dar espaço à sua imaginação. 

As narrativas que criamos e reproduzimos têm muito poder. Nós não chegamos à lua porque alguém resolveu inovar a indústria da aviação, ou porque alguém achou que precisava pivotar o seu business de telescópios pois a demanda estava baixa. Nós chegamos lá pois havia um desejo coletivo milenar construído por histórias que contávamos uns aos outros - já se escrevia sobre chegar à lua no século II. Durante a maior parte da sua existência essas histórias não tinham nenhum pé na realidade, era apenas um sonho sobre o impossível. Um sonho que nós escolhemos tornar real.

É discutível o que exatamente essa ida à lua trouxe de benéfico para a nossa sociedade, mas imagina o que ainda podemos tornar possível se focarmos nossas narrativas em questões mais mundanas.

This Present Moment, Alicia Eggert, 2019