Clímax #42: Rapidinha para fechar um mês de extremos

“Seja quente ou seja frio, não seja morno que eu te vomito” de uma forma um tanto estranha, a Bíblia já preconizava o fim das temperaturas amenas

Olá,

Você falou de clima nas últimas semanas? Eu imagino que sim. No mínimo você falou de tempo, de condições meteorológicas, mas tenho certeza que pelo menos em algum momento associou o que estava vendo com a crise climática.

É que foram muitos os eventos extremos no último mês. Tantos que até quem não costuma prestar muita atenção acabou desconfiado. Mesmo quem tentou focar nas olimpíadas não conseguiu desviar do assunto, vendo o quanto o calor atrapalhou os atletas, e como eventos tiveram que ser remarcados para evitar os períodos mais quentes e até um tufão.

A crise atingiu não apenas novas proporções, mas também novos lugares. Podemos reclamar o quanto quisermos – e com razão – da senhorinha alemã falando que “a gente não imagina que alguém vai morrer em uma enchente na Alemanha. Em outros lugares, sim, mas não na Alemanha”, porém, precisamos admitir que essas surpresas fazem diferença. Os incêndios nesta época do ano já viraram um evento tão comum no Oeste dos Estados Unidos e mesmo na Sibéria que praticamente não prestamos mais atenção, não nos sensibilizamos mais. Eu sei que é horrível reconhecer isso, mas é possível negar?

O que explica que ainda há quem se surpreenda que um país rico como a Alemanha tenha uma infraestrutura que não aguenta uma enchente, se já nos acostumamos a ver cidades inteiras desaparecerem na Califórnia – que se fosse um país seria a quinta maior economia do mundo, é lar dos bilionários do Vale do Silício e de celebridades de todos os tipos, cujas próprias casas milionárias volta e meia pegam fogo também? Quando vamos admitir que nenhum lugar está preparado?

Todos os anos as nossas florestas são desmatadas e queimam, mas por maior que a destruição seja, se no ano seguinte ela não é maior que no anterior as notícias não tem tanta influência. Já notou? Não basta ser ruim, precisa piorar. Assim como nas olimpíadas, adoramos um recorde.

Se queríamos recordes, aqui eles estão. Recordes de temperatura sendo batidos mais de uma vez na mesma semana no Canadá (49.6 °C), recorde de maior temperatura já registrada de forma precisa no mundo todo, na Califórnia (54.4°C). Também vimos imagens que nunca antes imaginamos, como a de pessoas presas em um metrô cheio de água na China, neve pesada no Brasil, enchentes e incêndios devastadores praticamente ao mesmo tempo na Turquia, animais marinhos sendo cozinhados vivos em um oceano mais quente, o ar de Nova Iorque se tornando o mais poluído do mundo por algumas horas devido à fumaça dos incêndios no outro lado do país, a água levando tudo o que vinha pela frente em diversos países da Europa, Ásia e Oriente Médio.

Será que ano que vem já acharemos tudo isso mais normal? Há uma linha tênue entre a aceitação do caos e um certo afastamento ou uma leve insensibilidade para conseguir se indignar sem se sentir derrotado. Como vamos evitar essa sensação de normalidade? Essa adaptabilidade emocional de nossa espécie pode ser também a nossa ruína?

Leituras interessantes

  • Polêmica: Um estudo se propõe a calcular o custo de mortalidade do carbono, assim como o custo social do carbono coloca um preço ($$) para as emissões baseado no seu impacto, eles colocariam um número de mortos. As conclusões? Usando como base a concentração de CO2 de 2020, a adição de um milhão de toneladas métricas de CO2 por um ano causa a morte de 226 pessoas. Isso é o equivalente a um quarto da capacidade média de uma usina termelétrica. Quando calculadas as emissões de um cidadão médio, apenas 3,5 americanos emitindo por uma vida inteira seriam capazes de matar uma pessoa, já a média global seria de 12,8 cidadãos emissores para uma vida perdida. Lembro aqui que essas são apenas sugestões de medidas, e que mesmo o cálculo do custo social do carbono, que já vem sido estudado há muito mais tempo, varia largamente entre propostas.

  • O futuro dos esportes: Bochechas coradas, uniforme encharcado, colete gelado e água para hidratar. Ficou bem claro que a temperatura no Japão não está favorável para os atletas que vieram do mundo inteiro para competir. Daqui do Brasil a gente não costuma imaginar que o país seja tão quente, mas a temperatura média anual de Tóquio aumentou 2.86C desde 1900. As Olimpíadas deste ano estão sendo consideradas uma amostra do que vem pela frente para os esportes em um planeta aquecido, algumas medidas adaptativas já estão sendo adotadas, mas muito mais será necessário. E a gente está olhando para esportes de verão, o que vai acontecer com os esportes de inverno que dependem de boas quantidades de neve? A BBC tem uma série bem interessante de jornalismo especulativo com matérias direto de 2050 explorando possíveis futuras histórias esportivas.

  • Corrida espacial dos bilionários: O 0,1% está emitindo horrores de gases de efeito estufa para visitar o espaço por poucos minutos e querem transformar isso em negócio enquanto fingem que seu arrasto de pé é um passo enorme para a humanidade. Deixemos os bilionários no espaço!

  • Fuga climática: Em algum momento de ecoansiedade você já pensou que está na hora de começar a buscar lugares mais seguros para se morar? Você já jogou no google “melhores lugares para viver a crise climática”? Um novo estudo aponta que ilhas de economia desenvolvida são nossas melhores opções, ou seja, lugares como Nova Zelândia, Islândia, e Grã Bretanha. Mas não prepare as malas ainda pois uma das condições para a boa avaliação é a habilidade de controlar suas fronteiras para evitar imigração indesejada. Eles não te querem! Vale lembrar também que não existem paraísos, o noroeste dos EUA, onde vimos uma onda de calor tremenda já foi considerado um bom lugar em termos climáticos, com pessoas se mudando da Califórnia e até mesmo das ilhas Mariana para lá fugindo de incêndios e tufões. Ainda sobre o tema, eu gostei muito do texto de opinião Seeking your climate refuge? Consider this (Buscando o seu refúgio climático? Considere isto). O texto foi escrito por uma mulher que, por causa dos efeitos da poluição dos incêndios na saúde dos filhos, se mudou com sua família do Oeste para o Nordeste dos EUA Duluth, uma cidade próxima da fronteira com o Canadá e considerada um refúgio climático, mas que no momento da escrita se via coberto de fumaça vinda justamente dos incêndios do outro lado do país em busca de um ambiente melhor. Ela traz uma mensagem interessante, a busca pelo refúgio não termina com a mudança, você precisa processar o sentimento que te fez partir e transformá-lo em motor para mais mudanças pois você representa o futuro do seu novo lar e deve garantir que seus novos vizinhos entendam a realidade que te trouxe ali. Há ainda, e principalmente, que fazer com que sua mudança não exacerbe desigualdades já existentes, e sobre isso traduzo o seguinte trecho:

Quando minha família se realocou em Duluth, Minnesota, o conselho mais valioso que recebemos veio de Karen Diver, uma antiga líder tribal dos cuidadores originais do local que hoje chamo de lar (Fond du Lac Band do Lago Superior Chippewa). “Não deixe que a sua solução para o clima resulte no nosso genocídio espiritual e cultural”. Aprenda a história do território que você chamará de lar. Lute pelos direitos indígenas. Apoie programas públicos e grupos comunitários. Pise leve (não deixe marcas).

Quer ouvir e falar mais sobre a crise climática e seus significados?

Abrimos uma nova turma do workshop Nós & o Clima, começando no dia 23 de agosto. O curso é promovido pelo Futuro Possível e facilitado por mim e pela Lua Couto.

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