Clímax #41: Descontando a raiva por aí

Estamos todos precisando.

Olá,

Ficamos uns dois meses sem Clímax, hein? Nesse tempo chegou uma galera nova aqui. Não sei de onde vocês vieram, mas queria dar as boas-vindas! Espero que vocês não tenham procurado a newsletter na caixa do spam por semanas achando que a demora estava estranha, é que aqui o lema é slow content mesmo. Se este é o primeiro email que você recebe da Clímax, aviso que eu tenho a impressão que esta edição está um pouco fora do comum, mas também posso estar errada. De qualquer forma, sugiro que vocês investiguem edições anteriores se tiverem um tempinho.

Mas olha que engraçado, quando eu comecei a escrever a newsletter de hoje eu pensei em testar uma versão mais curta. Tanto tempo se passou desde a última, tanta coisa aconteceu no mundo da crise climática, eu me senti meio sufocada por todos assuntos, com medo de não saber uma boa seleção. Pois bem, não deu, saiu um texto enorme como sempre, mas sem tocar em nem 90% do que andou nas notícias. 

O que saiu foi um texto todo trabalhado na raiva, que como toda “boa” raiva, acabou sendo dirigida às pessoas/temas/causas erradas. Mas anda mesmo difícil não ter raiva no Brasil, né? A gente tenta se controlar, passa CPI, recorde de mortos por COVID-19, rachadinha, outra privatização, outro caso de racismo, outra PL absurda e a gente respira fundo, diz que não pode se abalar demais porque precisa ficar firme. Dá uma choradinha ali no cantinho, e bola pra frente. Então do nada, no meio das férias, a gente lê uma matéria boba que possivelmente ninguém mais leu e tudo aquilo explode. Só resta escrever um texto longo misturando um monte de coisa só para fugir dos assuntos que estão realmente incomodando, e para esquecer que até o mar pegou fogo, o calor tá absurdo em um uns lugares e o frio em outros, e que a temporada de fogo começou no Hemisfério Norte e aqui também. Ou vai ver sou só eu.

Atualmente, um dos grandes gatilhos para mim é a união das palavras boiada e do verbo passar em qualquer tempo verbal. A combinação das letras B+O já estava pesada desde 2018 e só piorou, antes mesmo de terminar a palavra já reviro os olhos. Ter popularizado essa expressão nos títulos de toda matéria sobre o desmonte do país só não é a pior coisa que o Ricardo Salles já fez porque, bem, ele tornou a frase realidade, né? Aí não tem como competir mesmo...

Pois bem, no final do email eu dou uma passada rápida nos últimos acontecimentos bovinos do país, incluindo a saída de Salles do ministério, e sugiro algumas leituras para quem deixou passar alguma coisa porque estou sem condições. 

Aproveito para deixar registrada a promessa de NUNCA mais usar a expressão passar a boiada nem em texto, nem em fala. Peço que me avisem se um dia cometer um deslize. E se alguém quiser começar um abaixo assinado para proibir que jornalistas usem essas palavras em conjunto novamente, eu serei a primeira a assinar.

Sem mais demora… 

Cara, cadê meu carro?

Há algumas semanas uma leitura me tirou do sério. Intitulada “How we ran out of everything”, a matéria do New York Times tenta nos explicar porque é que está faltando de tudo no mercado — pelo menos nos Estados Unidos — e ganhou destaque ficando como manchete principal no site do jornal por pelo menos algumas horas, talvez um dia inteiro, no começo de junho. Devia ser um dia fraco de notícias, algo que o Brasil tinha me convencido estar em extinção.

Talvez vocês tenham lido sobre a escassez de chips, ou semicondutores, que diversas vezes este ano paralisou a produção de carros aqui no Brasil e em vários outros países. Uma fábrica da GM no Rio Grande do Sul, por exemplo, está parada desde abril e só deve retomar em agosto.

Os semicondutores estão presentes em muito mais coisas do que imaginamos. Dos já mencionados carros até lâmpadas de LED, cafeteiras, turbinas para produção de energia eólica ou máquinas de testagem de COVID-19. Em média, um único automóvel chega a usar mais de mil chips, então quando eles estão em falta isso realmente se torna um grande problema para quem tem pressa em produzir e vender.

Essas peças são tão onipresentes no que consumimos e tão importantes para todo tipo de manufatura, que já tem muita gente por aí anunciando que “o chip é o novo petróleo”.

Antes mesmo dos semicondutores virarem notícia, a pandemia nos fez dar falta de muitas outras coisas, inclusive algumas essenciais para o momento que vivíamos (vivemos), como equipamento de proteção, máscaras, luvas, álcool gel, e mais adiante respiradores. Sem contar com o infame papel higiênico que até hoje ninguém sabe se de fato faltou ou foi só paranóia.

Não é difícil entender como alguns produtos sumiram da prateleira no meio de uma pandemia, as razões são muitas e envolvem toda a cadeia de abastecimento. A produção e o comércio tiveram que diminuir ou fechar para evitar a aglomeração, principalmente no ambiente inóspito de boa parte das fábricas. O transporte também ficou mais difícil, principalmente quando precisava cruzar fronteiras, muitas vezes fechadas para controlar o vírus. Não são só os produtos finalizados que não chegam ao consumidor, mas a matéria prima, as peças, as embalagens, que não chegam até as linhas de produção e distribuidoras. Houve também uma mudança de demanda mesmo, começamos a consumir de forma diferente e alguns produtos se tornaram essenciais de uma hora para outra. Ah, e lembra aquele barco no canal de Suez? Teve essa também.

Porém, a matéria resolveu focar em um ponto, o método de produção “Just in Time”, “Lean Manufacturing”, ou em bom português Manufatura Enxuta. Esse sistema de produção foi criado na Toyota, em um Japão que se recuperava da Segunda Guerra Mundial, e tem dominado as mais diversas indústrias há mais de 50 anos. Inclusive, é a inspiração para a filosofia da Lean Startup, usada por 10 entre 10 empreendedores que preferem ser chamados de entrepreneurs

O método prega a diminuição de inventários, ou seja do armazenamento de peças e produtos. Para isso, a empresa precisa prever a demanda e planejar a encomenda e o recebimento da matéria prima ou componentes necessários para produção apenas no momento exato de usá-los, sem que haja espera, sem que que o material fique ocupando espaço à toa. 

No caso da indústria automobilística o que ocorreu foi que a previsão da demanda estava errada. No começo da pandemia, a demanda caiu pois ficamos todos em casa, e imaginou-se que continuaria assim. No entanto, a demanda retornou ao “normal” muito antes do previsto. As empresas não haviam encomendado os supercondutores, cuja produção, que demora cerca de três meses, já estava prometida para outras indústrias que tiveram aumento da demanda durante a pandemia. Produzir um supercondutor é uma tarefa super complicada, um processo automatizado que pode incluir mais de mil passos em máquinas que custam mais de cem milhões de dólares. Além disso, produzir um chip para um carro e para uma tablet são duas coisas muito diferentes, e não dá para simplesmente apertar um botão quando a demanda muda. É preciso muito planejamento e tempo.

O que os dois autores do texto querem nos convencer é que está mais do que na hora do reinado do Just in Time acabar pois ele não é mais capaz de suprir nossas necessidades, principalmente em momentos de crise. Eles parecem alegar que a única vantagem do modelo é o corte dos custos para a indústria, ocorrendo em detrimento do consumidor final.

Eu não estou aqui para defender nenhum sistema de produção, há várias coisas erradas com o Just in Time de hoje, como a dependência da exploração de fornecedores em regiões de mão de obra barata. E é claro que custo menor realmente é a razão pela qual a ideia se difundiu tão rapidamente pelo mundo todo e prevalece até hoje. No entanto, o modelo tem vantagens para todos nós, e a principal delas é criar bem menos desperdício do que métodos anteriores. Minimizar os desperdícios é, afinal, um dos pilares do conceito. A própria matéria do New York Times nos fala que parte da motivação para sua criação era o Japão estar passando por um momento de recuperação econômica com uma população explodindo e falta de recursos naturais, o que tornava muito importante limitar a expansão do uso de terras e a criação de lixo. 

Esse é o único momento em que o texto faz alguma menção a questão ambiental, e mesmo assim acho que foi sem querer e eles nem notaram. É justamente isso que me irritou. Como podemos falar em produção sem lembrar que o planeta é finito? Como podemos, em pleno 2021, sugerir que precisamos produzir mais e mais rapidamente, só para garantir que não vai faltar? Ou que precisamos ter tudo a disposição imediatamente caso alguém decida que precisa? 

Eles também nunca mencionam se e como a falta de produtos e a pausa na produção afetou os trabalhadores. Houve demissão em massa porque as fábricas diminuíram ou pararam sua produção por determinados períodos? Houve corte nos salários? Isso não parece importar. O que os incomoda parece ser unicamente termos ficado sem carros novos e sem novos modelos de tênis da Nike no momento exato em que resolvemos que era hora de consumir novamente. Mas afinal, quem é que realmente precisa de um carro ou um tênis para ontem?

Por baixo de tudo isso o incômodo de verdade se dá porque se há demanda que não consegue ser suprida isso significa que desperdiçamos uma oportunidade de crescer ainda mais a economia. A única coisa que não pode esperar é o lucro e o crescimento econômico.

Nem vou discorrer sobre o fato de já termos carros demais no mundo e que parte essencial da transição para uma economia de baixo carbono é o investimento em transporte público, e que, para muitos, é justamente quando não conseguem receber seu carro na hora certa se lembram que esse investimento está longe de ser o suficiente.

É engraçado também pois parece que os autores querem que a gente acredite que atualmente só produzimos o que realmente é necessário ou para o qual há demanda real, sempre no limite, correndo o risco de não produzir o suficiente. Como se o desperdício e a superprodução não fossem parte integral do nosso sistema.

Algumas semanas depois da publicação da matéria, viralizou na internet o vídeo da investigação da ITV News do Reino Unido sobre a destruição frequente de milhões de produtos armazenados nos depósitos da Amazon. Isso não é novidade, tampouco a Amazon é a única empresa a agir dessa forma. Marcas de roupa, do fast fashion ao luxo, por exemplo, queimam produtos fora de estação, como o escândalo da Burberry há alguns anos. Empresas do varejo “não virtual” também são responsáveis pela destruição diária de produtos, como já falei por aqui quando mostrei o perfil de Instagram da Anna Sacks, ou The Trash Walker, que revira as lixeiras de lojas em Nova Iorque para nos mostrar tudo o que é descartado, além de batalhar por leis que impeçam essa atitude. 

É importante a gente destacar a palavra destruir, pois não se trata somente do descarte, mas sim de uma ação intencional para inutilizar os produtos que, senão, estariam em perfeita condição para o consumo.

Um exemplo que eu acho emblemático é o dos produtos sazonais, como objetos com tema de natal, páscoa ou dia dos namorados – decoração, papel de embrulho, cartão, etc –  que por fazerem sentido apenas em um período muito curto do ano, são considerados lixo após a comemoração já que vale mais a pena perder tudo e ter que produzir de novo no ano seguinte do que deixá-los parados ocupando espaço no estoque por mais 10 meses. É claro que o custo de toda essa produção excessiva e desse descarte é previsto e já está embutido no preço que pagamos como consumidores. 

Como pode estar sobrando e faltando tanta coisa ao mesmo tempo? 

Tem também o outro lado. Na última linha, o texto cita um entrevistado falando em resiliência da produção, sugerindo que é algo que o modelo Just in Time não oferece e que isso provavelmente não vai mudar porque o consumidor não está disposto a pagar mais por isso. Se estamos falando sobre resiliência, sobre como os sistemas de produção precisam se adaptar e estar preparados para riscos como o da pandemia garantido que escassez de bens será evitada, como podemos esquecer dos riscos da crise climática, que incluem a possibilidade de novas pandemias? A solução não pode ser parte do problema. 

Mas parece que o imediatismo se tornou tão presente em nossas vidas que nos deixou cegos, acreditando que precisamos produzir mais apenas para sempre termos à nossa disposição tudo o que porventura decidirmos querer. Acreditamos que nossas necessidades são de última hora, quando na verdade são os desejos que despertam sem anúncio prévio. 

As cadeias de produção se tornaram tão longas e complexas que perdemos totalmente a noção de como e em quanto tempo nossas coisas são feitas. Não conseguimos mais entender os processos e nos iludimos achando que as fábricas que enxergamos nos limites das nossas grandes cidades são responsáveis pela integralidade do produto que de lá sai, e que no mundo de máquinas em que vivemos, tudo pode ser criado em poucos instantes. 

Voltando ao exemplo dos automóveis, é preciso três meses só para a produção dos chips, mais outros meses para ser incluído no carro e outros tantos para chegar ao consumidor. E os chips são apenas um dos inúmeros componentes produzidos nos quatro cantos do mundo e que juntos formam um veículo. Eu continuo sem ter ideia de quanto tempo demora no total, mas vamos ser otimistas e chutar oito meses. São oito meses para produzir um carro, mas você quer chegar na loja e já sair de carro novo.

Será que ter verdadeira consciência de tudo o que está envolvido nesses processos nos faria consumir menos? Será que se as coisas não estivessem disponíveis o tempo todo o nosso consumo seria diferente? Será que é justamente isso que assusta?

É claro que no caso da EPI (equipamento de proteção individual) para a COVID-19, ou dos respiradores, a necessidade era realmente imediata e veio de surpresa. Mas boa parte do problema foi que hoje poucos países produzem esse equipamento, com a China dominando o mercado. É claro, também, que para produtos essenciais e emergenciais o sistema de abastecimento deve ser diferenciado, e esses riscos podem ser antecipados. É por isso que nesses casos é preciso que os governos nacionais estejam atentos e tenham seus próprios estoques, é uma questão de saúde pública, de segurança nacional. É preciso também que se incentive e fortaleça indústrias locais produzindo esses produtos estratégicos e seus componentes, para não depender de remessas chegando de navios do outro lado do mundo. 

No Brasil, a Força Nacional do SUS gerencia estoques de medicamentos e insumos necessários para situações de emergência, quando é superada a capacidade de resposta do governo local. Os Estados Unidos têm um estoque desses desde 1999, chamado Strategic National Stockpile, no qual constavam no começo da pandemia 16.000 respiradores, por exemplo, parcela pequena dos 80.000 que acabaram sendo necessários, mas já de grande ajuda. Só que esses estoques, por serem tão invisíveis na maior parte do tempo, raramente recebem fundos suficientes. 

No país que realmente importa para os responsáveis pela matéria, os Estados Unidos, se nada mais der certo, o governo ainda pode exercer seu poder através da lei Defense Production Act de 1950, e redirecionar a produção das indústrias do país em prol da nação. O que já aconteceu em momentos de guerra, priorizando o suprimento de certos materiais para a indústria bélica em detrimento de outras indústrias, por exemplo. Mas que foi também usada nesta pandemia para o bem, fortalecendo a produção de vacinas, e para o mal, forçando frigoríficos a se manterem abertos, expondo seus trabalhadores ao vírus, alegando a importância do fornecimento estável de proteína animal.

Além disso, não podemos esquecer que boa parte do problema da falta de respiradores foi a questão das patentes e das fábricas que não queriam dividi-las com quem tinha condição de produzir quando elas já estavam no seu limite. A mesma coisa que vimos acontecer com as vacinas. 

Se de fato a preocupação dos autores é com situações inesperadas, como a da pandemia, ou mesmo uma guerra, talvez seja mais importante focar no quão dispersa pelo mundo está a nossa cadeia de suprimentos ou no fato de quase toda a indústria mundial de semicondutores estar centralizada em Taiwan e na Coréia do Sul, ao invés de atacar o Just in Time. Até porque, veja só, a Toyota foi um dos fabricantes automotivos cuja produção menos sofreu com a pandemia. Por que? Pois mantém a sua cadeia de abastecimento no Japão, sem depender de um sistema global de produção e transporte que foi fortemente afetado pelas dificuldades trazidas pelo coronavírus. Exatamente como ditava o modelo Lean criado ali.

No fundo, no fundo, talvez esta minha implicância com a matéria e a razão de ser deste texto inteiro seja extravasar o tanto que eu estou cansada dos veículos de comunicação que se orgulham tanto de sua cobertura climática mas não conseguem conectar o tema com outras editorias. Que investem em um grupo de jornalistas super especializados em crise climática, mas mantém 80% da redação totalmente desinformada e desatualizada sobre o assunto.

Sobre aquela expressão indigesta:

Até a próxima!

Obs.: Para quem se interessou pelo curso Nós & o Clima comigo e com a Lua Couto do Futuro Possível, mas não conseguiu participar, já adianto que em breve vamos anunciar nova turma. :) E deixo um oizinho especial para quem participou da primeira edição e está lendo este email.